há que se
falar em amor sem dizer "te amo"
sentimental sem ser piegas
de Deus sem dizer Seu nome
da dor sem comiseração
da luta árdua sem desencanto
do céu sem citar estrelas e lua
das lágrimas sem revelar razões
há que ser claro, sem ser óbvio
buscar ineditismo na mesmice
ter olhos enviesados na monotonia
mensagens desiguais sendo semelhantes
ter-se graça sem buscar o engraçado
belo sem rebuscar belezas
insinuar o não dito, mas compreendido
ver nuances de permeio,
o resto é recheio...
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
sábado, 6 de fevereiro de 2010
CÁRCERES
invisíveis aos olhos
presentes nos atos
limites impostos
hábitos
costumes
condicionamentos
estreitos, medíocres
asas atrofiadas
banidas de voos
visões limítrofes
a outros horizontes
restritas e contritas
comedidos passos
preconceitos
julgamentos
Seres perfeitos
em confeitos
desfeitos na massa...
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
TRÔPEGA LUCIDEZ
devaneios sugeridos
ao som de uma música
tomando cervejas
masgando amendoins
a mente solta
ambiente agitado
os olhos ao derredor
colhendo atrevido cenas
a compor um cenário
detalhes se avolumam
como protagonistas
superlativando miudezas
sufoco de mormaço
chuva leve lá fora
mesa repleta de garrafas
ócio curtido em divagações
malícias sensuais
nas ancas morenas
roliças, matreiras,
convites presumidos
alheio a mim,
deserto, perdido,
sortido como bala
em baleiro colorido
alternando goles
salivando sementes
devoradas ávido,
voraz , insaciável
multiforme, distante,
inconstante, insano,
incendiado e acalmado
nos 4% etílico dos 600ml...
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
FÊNIX
nunca serão perdidas
as esperanças
renascidas, revividas,
acalentadas lembranças
ainda que marés bravias
invadam o continente
e as chagas sangrem abertas
renova-se a fé em novos dias
é a têmpera humana
desafios indomados
sofrimentos e risos
sua bagagem onde for
mal final, padecente,
crê-se eterno, vigoroso,
idealiza cenários lindos,
na crua realidade
é parte de sua história
a adversidade
aspirar voos altíssimos,
ter sonhos, mitigar a dor...
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
VOOS
impotentes
na inexorável
nua realidade
no culto
das palavras
asas libertas
pássaros
em voos
Seres ao acaso
cores em matizes
reverberam leves, suaves,
sonhos nossos, pintados...
ENERGIA
faíscas do atrito
entre pedras
acalentado fogo
assa e acalenta
tochas incendidas
iluminam caminhos
reconforta
e neutraliza medos
calor que acarinha
à beira da fogueira
primeiros convívios
humanos agrupados
estabelecida confraria
ao redor das labaredas
se aquece e se alimenta
primevas raízes das tribos
tempos imemoriais
avanços, descobertas,
eurecas de delírios !
humanidade passos largos
hoje, um acender,
rápido, habitual,
chamas, calor, luz
atos corriqueiros
acendem-se cigarros
no papo trivial
água na fervura pro café
e a conversa saboreada
buscas no conforto
da energia
clarões que aquecem
clareiam nossos passos...
domingo, 31 de janeiro de 2010
QUIMERAS
ande, que tenho pressa !
uma doideira de avançar
não me segure os passos
tenho ânsia de chegar
a algum lugar
como um alpinista
que se arrasta no grotão
desafiando perigos
para o prazer momentâneo
de ver do alto da montanha
os vales,as nuvens, o céu
gozando a ousadia de ter chegado
arre, corra, tenho urgência
de estar em meu destino
não há penhascos a transpor
nem desafios
só a ira
dessa pressa
sem saber
doidivanas
onde vai dar...
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
ALUCINAÇÃO ( CONTO)

Reverberava da janela do pequeno quarto um sol tênue, de meia tarde, chocando-se com o vitral, causando um reflexo luminoso, qual fagulha de uma chama.
A rua era deserta. Só mesmo a réstia de luz permanecia latejante. O comércio tinha suas portas cerradas, deveria, certamente, ser feriado.
A rua era deserta. Só mesmo a réstia de luz permanecia latejante. O comércio tinha suas portas cerradas, deveria, certamente, ser feriado.
Da mais modesta loja até o Paço municipal podia se admirar, ainda que de forma modesta, a arte no talhe das portas, gosto hoje raro. Uma ou outra alma percebia-se perambulando pelos arredores do adro da matriz, a qual exibia belíssimas esculturas, imagens sacras, lembrando o período barroco. De resto, pouco ou quase nada se alterava naquelas pequeninas alamedas, distribuídas em forma de setas, tendo por centro um jardim melancólico a rodear a igreja.
Um cão magro, empesteado, contrastando com o asseio do ambiente, acomodou-se sob um dos bancos, gentilmente cedido por uma das casas comerciais ou personalidades da câmara.
Acompanhava o cenário plácido uma fragrância agradável provinda dos pés de figo, predominantes por todo o passeio público. Um chafariz aposentado, lembrando a mitológica figura grega, Netuno, a ostentar um tridente ou cedro - não estou bem certo - cercado por graciosos peixinhos de pedra a jorrarem água na fonte seca.
Aquele harmônico conjunto de coisas simples e belas chegava-me como uma tela em guache com matizes claros, suaves e exageradamente poéticos. Não fosse o pesar que de mim se apossava, poderia propor-me uma volta pelos pontos mais excêntricos para certificar-me se tal paz reinava também pela periferia. Não fui. Estava demasiadamente indisposto, os olhos irritados e vermelhos por uma noite em claro. Dessa forma, recolhida a inspiração no âmago ferido, toda a sensação transmitida pela paisagem bucólica tornava-se enfastiante e monótona, dando-me a certeza do isolamento, pondo-me n'alma um esplin deplorável.
Limitei-me a observar de longe o clima propício às divagações do espírito. Desprezei ou procurei afastar, imagens que me fizessem recordar a chaga ainda sangrando, escancarada, doída. Não raras viam às bátegas, encontrando-me fraco e indefeso, impossibilitado de fuga, como um foragindo embestegado num labirinto sem saída, cuja única sina fosse o fim.
Num plano irreal, pensei entregar-me à letargia profunda, esquecendo-me na coloração pitoresca daquela paisagem. Cheguei a temer um pesadelo, como se a situação em si já não o fosse. Invejei o cão, mesmo doente, pois descansava despreocupado.
Uma gota de suor escorreu-me pela testa trazendo-me à realidade. Era verão. Um mormaço, antevendo chuvas, evaporava-se do solo, enchendo-me as narinas de um frescor de terra revolta ao contato com a àgua.
Trajava um hábito sisudo, de pêsames, negro. A camisa de um colorido discreto colou-se à pele. Eu transpirava por todo o corpo. Sentia, amiúde, calafrios e mal-estares passageiros, resultando em frequentes vertigens.
Achava-me debilitado e exausto. Não tinha apetite, tampouco calma para o sono. Há dois dias abstinha-me da alimentação. Tinha os olhos saltados nas órbitas e um ar alucinado, beirando à sandice total. Vagava como uma sombra babélica, fitando o vazio, vendo não vendo.
A tela poética, bela e tranquila, tornava-se, ao sabor de meu estado de semi-consciência, funesta, carregada, escura. As árvores envergavam seus galhos num farfalhar enlouquecedor, chegando a derrubar seus frutos ainda verdes. Julguei ouvir, levemente, o sino agitar-se com o vendaval que se anunciava breve, dando ao todo um tom de dilúvio apocalíptico.
Passados os instantes de agonia, voltava a mim e tomava ciência de que tudo não era senão o produto de uma mente condenada, tresloucada, enferma. Tratava-se não de um temporal, como terrivelmente imaginara, mas de algumas nuves passageiras, sem diminuírem a temperatura, apenas resfrecando-a um pouco.
Uma algazarra alegre ouvia, barcos de papel, riso, choros, euforias, sol e chuva casamento de viúva ! Como se dizia na inocência de meus primeiros anos. Este pensamento mesclou-se em meu ser desnorteado e encheu-me os olhos de um saudosísmo intenso... Quem dera, agora, não temer o inevitável, não envelhecer-me no tédio de minhas aflições !
Com o aguaceiro, um certo movimento animou, por instantes, o panorama. A chuva descia copiosa e sôfrega em nutridas gotas, será breve, pensei. Um casal de pombos possivelmente ocultos nos alpendres das casas ou pelos vãos das calhas sobrevoaram a praça, cortando-a, indo pousar próximo à capela do sino.
O vira-latas, preguiçoso, buscou refúgio mais acolhedor no coreto velho em desuso, instalando-se num ângulo ainda livre das goteiras, enquanto lambia a ferida exposta, procurando alívio para a sua dor.
O silêncio, se é que chegou a ser molestado, invadiu definitivamente as ruelas e as vidas solitárias, dando à tarde um anoitecer precoce, auxiliado pelo tempo que a fazia escura.
Da janela, prostrado, em pé, observava a praça tornar-se opaca, com as figueiras, as aves, o cão... Embaçou-se o colorido da vidraça e atrás dela minha face retalhada em cores fortes, num mosaico tétrico.
Apagava-se, por fim, o último alento de vida, o raio de sol na janela.
Um manto negro debruçava-se sobre a tarde, que morria, eu, confuso, ia com ela...
* TEXTO ESCOLHIDO PARA FIGURAR NA ANTOLOGIA DE CONTOS ALÉM DA IMAGINAÇÃO, DA EDITORA CÂMARA BRASILEIRA DE JOVENS ESCRITORES, EDIÇÃO JANEIRO 2010.
* TEXTO ORIGINALMENTE PUBLICADO COM O TÍTULO " VENTO, PORTAS E JANELAS "
, NA FOLHA LITERÁRIA DO COL. FIDELINO DE FIGUEIREDO, SÃO PAULO, CAPITAL, EM JUNHO DE 1978.
Um cão magro, empesteado, contrastando com o asseio do ambiente, acomodou-se sob um dos bancos, gentilmente cedido por uma das casas comerciais ou personalidades da câmara.
Acompanhava o cenário plácido uma fragrância agradável provinda dos pés de figo, predominantes por todo o passeio público. Um chafariz aposentado, lembrando a mitológica figura grega, Netuno, a ostentar um tridente ou cedro - não estou bem certo - cercado por graciosos peixinhos de pedra a jorrarem água na fonte seca.
Aquele harmônico conjunto de coisas simples e belas chegava-me como uma tela em guache com matizes claros, suaves e exageradamente poéticos. Não fosse o pesar que de mim se apossava, poderia propor-me uma volta pelos pontos mais excêntricos para certificar-me se tal paz reinava também pela periferia. Não fui. Estava demasiadamente indisposto, os olhos irritados e vermelhos por uma noite em claro. Dessa forma, recolhida a inspiração no âmago ferido, toda a sensação transmitida pela paisagem bucólica tornava-se enfastiante e monótona, dando-me a certeza do isolamento, pondo-me n'alma um esplin deplorável.
Limitei-me a observar de longe o clima propício às divagações do espírito. Desprezei ou procurei afastar, imagens que me fizessem recordar a chaga ainda sangrando, escancarada, doída. Não raras viam às bátegas, encontrando-me fraco e indefeso, impossibilitado de fuga, como um foragindo embestegado num labirinto sem saída, cuja única sina fosse o fim.
Num plano irreal, pensei entregar-me à letargia profunda, esquecendo-me na coloração pitoresca daquela paisagem. Cheguei a temer um pesadelo, como se a situação em si já não o fosse. Invejei o cão, mesmo doente, pois descansava despreocupado.
Uma gota de suor escorreu-me pela testa trazendo-me à realidade. Era verão. Um mormaço, antevendo chuvas, evaporava-se do solo, enchendo-me as narinas de um frescor de terra revolta ao contato com a àgua.
Trajava um hábito sisudo, de pêsames, negro. A camisa de um colorido discreto colou-se à pele. Eu transpirava por todo o corpo. Sentia, amiúde, calafrios e mal-estares passageiros, resultando em frequentes vertigens.
Achava-me debilitado e exausto. Não tinha apetite, tampouco calma para o sono. Há dois dias abstinha-me da alimentação. Tinha os olhos saltados nas órbitas e um ar alucinado, beirando à sandice total. Vagava como uma sombra babélica, fitando o vazio, vendo não vendo.
A tela poética, bela e tranquila, tornava-se, ao sabor de meu estado de semi-consciência, funesta, carregada, escura. As árvores envergavam seus galhos num farfalhar enlouquecedor, chegando a derrubar seus frutos ainda verdes. Julguei ouvir, levemente, o sino agitar-se com o vendaval que se anunciava breve, dando ao todo um tom de dilúvio apocalíptico.
Passados os instantes de agonia, voltava a mim e tomava ciência de que tudo não era senão o produto de uma mente condenada, tresloucada, enferma. Tratava-se não de um temporal, como terrivelmente imaginara, mas de algumas nuves passageiras, sem diminuírem a temperatura, apenas resfrecando-a um pouco.
Uma algazarra alegre ouvia, barcos de papel, riso, choros, euforias, sol e chuva casamento de viúva ! Como se dizia na inocência de meus primeiros anos. Este pensamento mesclou-se em meu ser desnorteado e encheu-me os olhos de um saudosísmo intenso... Quem dera, agora, não temer o inevitável, não envelhecer-me no tédio de minhas aflições !
Com o aguaceiro, um certo movimento animou, por instantes, o panorama. A chuva descia copiosa e sôfrega em nutridas gotas, será breve, pensei. Um casal de pombos possivelmente ocultos nos alpendres das casas ou pelos vãos das calhas sobrevoaram a praça, cortando-a, indo pousar próximo à capela do sino.
O vira-latas, preguiçoso, buscou refúgio mais acolhedor no coreto velho em desuso, instalando-se num ângulo ainda livre das goteiras, enquanto lambia a ferida exposta, procurando alívio para a sua dor.
O silêncio, se é que chegou a ser molestado, invadiu definitivamente as ruelas e as vidas solitárias, dando à tarde um anoitecer precoce, auxiliado pelo tempo que a fazia escura.
Da janela, prostrado, em pé, observava a praça tornar-se opaca, com as figueiras, as aves, o cão... Embaçou-se o colorido da vidraça e atrás dela minha face retalhada em cores fortes, num mosaico tétrico.
Apagava-se, por fim, o último alento de vida, o raio de sol na janela.
Um manto negro debruçava-se sobre a tarde, que morria, eu, confuso, ia com ela...
* TEXTO ESCOLHIDO PARA FIGURAR NA ANTOLOGIA DE CONTOS ALÉM DA IMAGINAÇÃO, DA EDITORA CÂMARA BRASILEIRA DE JOVENS ESCRITORES, EDIÇÃO JANEIRO 2010.
* TEXTO ORIGINALMENTE PUBLICADO COM O TÍTULO " VENTO, PORTAS E JANELAS "
, NA FOLHA LITERÁRIA DO COL. FIDELINO DE FIGUEIREDO, SÃO PAULO, CAPITAL, EM JUNHO DE 1978.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
MATURIDADE
bravias ondas das tempestades
batem nas rochas,
invadem a praia,
aterrorizam
altas, impetuosas, ameaçadoras
forças incontidas da Natureza
insegurança aos homens
céus crispados em raios vivos
vendavais dominados, serenados,
apascentadas iras em descontroles
as àguas mansas beijam o continente
e a paz, antes turbada, sorri
nada como o tempo
que serena todas as mágoas
acomoda todos os dissabores
e nos dispõe a seguir jornada...
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
AVE EMPLUMADA*

planta tenra
nascida
criada
sob cuidados
choros e febres
carícias
noites indormidas
preocupados
seus braços
abertos
cobertos
de beijos
anseios desejos
aspirações
figura amada
trôpegos passos
seu crescer
infância relembrada
adolescência
traços do tempo
vê-lo hoje
canudo na mão
esperanças e luzes
caminhos na estrada
lágrimas que inundam
relembram e nos traz
certezas e alegrias
vida que se perpetua
teus amplos horizontes
opções e escolhas
nascentes nos ímpetos
da vigorosa mocidade...
* ao meu filho, Caio Cândido Ferraro, pela sua graduação em História, Unesp Franca-SP
* agradeço minha ex-companheira e esposa , Terezinha Cândido, por este presente compartilhado.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
TRANSCENDÊNCIA
solidão
paz
devaneios
baú descerrado
de surpresas,
lembranças
acalentados,
no viver presente,
anseios de outrora
arquivos, labirintos,
inúmeras imagens
gavetas da memória
voar além, distante.
pausas para depois
alheio ao instante
no ontem emoções
ressurgidas, emotivas,
revividas no agora...
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
VISÃO ÍNTIMA
visão de si
estranha
da imagem
vertida no espelho
lá está refletida
a ação do tempo
cicatrizes, marcas
cansaço, desalento
na íntima noção
de nós imaginada
nutrida, sentida
difere da espelhada
cristalizada, idealizada
aberta às cogitações
mocidade preservada
imorredouras luzes
vitalidades, esperanças
anseios acalentados
sonhos preservados
distantes da cronologia
enxerga-se no íntimo
a criança atrevida
adulta não assumida
ânimos que nos refaz...
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