domingo, 22 de março de 2015



Selecionado para publicação na antologia CONTOS FANTÁSTICOS, editora CBJE - Rio de Janeiro-RJ, lançamento em maio/2015.

O nascer da mensagem


Lambiam os olhos a paisagem, agrupando elementos para a construção do enredo, solto aos poucos, como se buscados no inconsciente, dando versões ao que presenciava. Plasmado do abstrato, pedindo para existir, invisível, imperceptível. Emoções repentinas, observações sutis, etéreas insinuações.
Uma inspiração no ar, dissoluta,  uma essência. Desafio a materializar, reclamando presença, cores e formas, em símbolos que a desenhem, dando lhe contornos visíveis, palpáveis, inteligíveis.
Difícil é transmitir sua pujança, a alma inquieta, suas multifaces em diversos sentidos,. Um respirar profundo, meditativo, viajante, alento em devaneios, a brotar, finalmente, em palavras, como um sopro existindo.
Naqueles momentos tão pessoais, não importava o contexto, suas imagens se construíam, debalde o universo apresentado distasse do que se via, surgiam as letras codificando a mensagem, transcrita em códigos verbais plasmando do etéreo as visões recônditas em seu íntimo. Iniciado seus devaneios, dando consistências ao relato, por fim aparecendo os esboços de sua narrativa introspectiva com suas personagens inusitadas, num consórcio indissociável entre o autor e a criação.

 Haveria, nesse processo, quem afirmasse que ali estava, não estando. Tal a distância entre a presença física do alheamento nos sonhos, captando emoções na tentativa de decifrá-la a outros, em palavras e sentidos. Posto que o ato de criação é pessoal, absorvente, não participando a terceiros, numa busca interior não partilhada, apenas o depois, decodificada a mensagem, onde cada qual a decifre como puder entender.
Embate único, onde julgava ser possível retirar as cores, desnundando as ilusões dos dias. Encarando de frente a realidade, sem adereços, requintes, desprovida das alegorias. Sem ornamentos frívolos, purpurinas e neons, na nua realidade crua, arrepiando e amendrontando, carecendo a volta aos disfarces, em caras pintadas, roupas largas, renascendo o palhaço no oculto das lágrimas, sorrindo a todos, lamentando-se no íntimo.
Sendo o que querem que ele seja, como o vêem, amável, cortês, simpático e bom, nem sempre cumprindo tudo bem o que dele se esperava. Às vezes ele mesmo oculto sob escombros, nas sombras, ignoto de seu Ser, ironizando conveniências sociais, sob a armadura de outras máscaras. Mesclando atitudes, ora aceitas, noutras não, panela de pressão, artista em frangalhos nesta barafunda a sua personalidade.
Toda a humanidade de si aflora, dual e magnífico, sobranceiro e tímido, múltiplos em um único ente, fantasioso e cruel, poeta e ordinário, erudito e medíocre, menino às vezes, e adulto em turbilhões de conflitos.
Na confusão  de sensações, sua alma inquieta plasma a matéria, habita e apresenta sua lavra, às platéias representa e engole o grito. Nos labirintos de si mesmo, ardente vulcão em ebulição, aflito Ser em busca de si e de seu caminho.
 A navalha cortante na pele macia, resvalando e ferindo, macula e geme, espinhos das nostalgias, saudades como urtigas cultivadas em jardins floridos. Aventura a descrever,  extraindo de si mesmo a essência descrita em prosa e versos, atirando-se em tantos riscos, na sanidade insana de se revelar desnudo de fantasias. Sempre que atrevia a se desvendar mantendo o equilíbrio na corda bamba, fustigando a si mesmo, em feridas estuporando tumores, amargando desventuras, para enfim trazer em palavras escritas alguma luz.
Na introspecção que incendeia as veias ardendo pela pressão do sangue a se agitar, na ânsia pelas expressões em imagens toscas apreendidas em verdades. Mostrar-se é desafiar, abrir mãos de intimidades, colocar-se um pouco, diluir-se em cada diálogo, imiscuindo-se à guisa de ficção, reconhecendo-se na fragilidade psicológica dos elementos a bailarem no jogo lúdico de cada cenário imaginado. Diáfanos seres, alimentados no hálito do escritor, buscando dar-lhes vida e veracidade, transpondo impressões vitais em suas criações, situando os no plano do concreto e do real.
Depois de acabado o texto, despatriado de si, como algo apartado , lendo e relendo, cada vez mais distante do criador, a gostar ou desprezar, pouco importa, jaz concluído, não lhe pertence mais, produto de suas entranhas, buscando vida própria, independência. Concebido, divulgado ou esquecido, algo estranho, de alheia origem, deserdado, uma vez parido, com dores e estertores, ganha luz própria, interpretação livre. Bastardo filho de suas cogitações, já foi parido, sofrido com as dores do nascedouro, feito a mãe no nascimento acariciando o filho concebido.
Para o autor, feito o parto, resta a busca, inconsciente, por outra empreitada, como um vício a reclamar dedicação, num duelo intrínseco com as ferramentas das palavras, carecendo novas inspirações, embrenhando-se insatisfeito por novas realizações, garimpando na aspereza de rochas brutas a jóia a ser esculpida.
O prazer está na emoção da construção, tijolo a tijolo, adquirindo contornos, delineando-se, até amadurecer e ganhar autonomia, liberdade. Interpretada, livre, em cada imaginação. Mensagem filha da vida, assumida, desligada da origem,  já não pertence mais ao seu criador...

*Publicado no BLOG DO LIMA COELHO- CONTOS, CRÔNICAS, POESIAS E ARTIGOS LITERÁRIOS - SÃO LUIZ/MA (+6 milhões de acessos na internet) Ilustrações de MEL ALECRIM, poetisa e contista. 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015


    


"Nó em pingo d'água"
Contos Selecionados
- Edição Especial 2015 


Texto selecionado para figurar em livro na Antologia
  "Nó em pingo d`àgua" Câmara Brasileira de Jovens
 Escritores, CBJE - Rio de Janeiro-RJ,
 lançamento abril 2015











MANGUE - CÂNDIDO PORTINARI, 1929


A PROSTITUTA E A MENINA

Recebera  tantas considerações, enaltecida como uma preciosidade, parecendo parte do patrimônio da cidadela, talvez para desculparem as poucas distrações que ofereciam  aos visitantes, avultava a figura na conta de um atrativo excepcional.  Desde que chegara a trabalho naquele vilarejo, bastou tornar-se mais íntimo de alguém para que lhe descrevessem aquela mulher como uma deusa, instigando-o para conhecê-la, ao vivo e em cores.

Aquele era o dia.  Encontrava-se naquele local bizarro, com decoração berrante e de mau gosto, em tonalidades fortes, parecendo realmente o palco de um prostíbulo, como era. Cortinas vermelhas, papéis de parede em detalhes chamativos,  impróprios, diria para si mesmo, algo desdenhando daquele local, onde as mulheres, exageradamente maquiadas, o olhavam curiosas e convidativas. A música também combinava com o cenário chinfrim, burlesco.


Enfim, a avistava, destacava-se das demais, sim, era  a mais atraente e bela, pensou em levantar-se e aproximar, mas se deteve, ao vê-la ladeada por um homem a acompanhá-la a uma mesa privativa. Pelo jeito, naquela noite, estaria ocupada.


As noites sucessivas sempre chegando atrasado, não conseguindo estabelecer um contato com aquela cobiçada dama. Informou-se no balcão do bar e teve conhecimento de que ela só atendia com prévio agendamento, e parecia que a espera seria longa, ainda assim levou um cartão de visitas. Quanto mais difícil era, mas crescia seu interesse por ela, não dando chances para as demais.


A rotina de seu trabalho, com tempo certo para o término, quando então deveria retornar à matriz, na capital onde trabalhava e residia, o absorvia. Esquecera-se de ligar, o faria por curiosidade, não era dado a aventuras tais, apenas, motivado pela popularidade da prostituta, queria conhecê-la pessoalmente.


Revirando os bolsos das roupas para mandá-las à lavanderia, encontrou o cartão, sorriu como quem não pretendia levar  a sério aquela estória, mas, ainda assim, não o descartou, guardando na gaveta do criado mudo do hotel.


 Foi durante o expediente, num rápido intervalo para o café, que ouviu a conversa que o intrigou. Um dos homens, envaidecido, afirmava a outro que passara uma noite inesquecível com aquela dama, que fora difícil conseguir um espaço na agenda dela, mas valera a pena.  Como um garoto curioso, cresceu novamente a sanha de conseguir vê-la,  antes que terminasse o prazo dos trabalhos que o prendiam na filial, naquele lugarejo parado no tempo.


No quarto, buscou pelo cartão e tentou ligar, sendo que entrava em uma caixa postal, onde  uma voz feminina avisava que retornaria a ligação, não sendo possível atender naquele momento, caso quisesse, deixar o nome e o número de telefone.. Desligou sem deixar recado.


Os dias corriam, o trabalho estava próximo do fim, parecia ter desistido daquela aventura maluca. Era apenas mais uma mulher, bela, sem dúvida, mas não única, a capital estava cheio de beldades desfilando, por que tanto esforço para conhecê-la ?. 


Contudo, havia o desafio da conquista, vencer as resistências, um certo fetiche, um prêmio que se tornava mais interessante quanto mais difícil se apresentava. Eram enfadonhas as noites na cidade desprovida de atrativos para turistas, ficando praticamente deserta antes das vinte e três horas. Restava a televisão, a internet, ou o sono que demorava a chegar, acostumado com a rotina de grande centro e a dormir tarde.


Incomodava a idéia de desistir de estar com ela,  poderia ser uma lembrança diferente, um souvenir de viagem, um troféu, já que era disputada por todos os homens que chegavam naquele local.Não deixara o telefone para retorno, não se sentira seguro de dar seu número a estranhos, principalmente naquelas situações. Perdera a oportunidade de tentar estabelecer o contato. 


No último dia de estada na cidade, terminou o serviço mais cedo, preparou a mala de viagem, tentou uma nova ligação para aquele número do cartão e ouviu a  mesma gravação... Mesmo que quisesse deixar recado, não daria mais tempo, estaria pegando a estrada logo mais. 


Ainda era cedo, por certo a “casa” não tinha sido aberta ao público, por que não tentar vê-la, mesmo que fosse para uma conversa rápida, não um programa, caso ela não quisesse, mas vê-la e quebrar com aquela curiosidade que o consumia desde que chegou ali ? 


Chegou ao local meio sem jeito, não sabia como se dirigir a quem quer que fosse, afinal a função só começaria a partir das vinte e uma horas e eram apenas dezessete da tarde, seria a última tentativa. Acabou vendo o rapaz que atendia no bar, confidenciou-lhe sua intenção e pressa.


Orientado pelo informante, entrou na casa e caminhou pelo extenso corredor, onde ficavam os quartos pessoais das mulheres ,não os de atendimento de clientes, separados em outro hall. Passando-se por entregador de  mercadorias para abastecer a cozinha. Soube o número do quarto da enigmática dona, chegou perto, viu que a porta estava entreaberta, uma música suave, de cantigas de rodas, ouvia-se, empurrou discretamente a porta sem fazer barulho... ela ressonava sobre leve lençol, abraçada a um  boneco de pelúcia , inacreditável aquele quarto infantil, decorado com  personagens de contos de fadas e gnomos, numa alegoria destoante do ambiente esperado de um prostíbulo. 


Sem saber como agir, desprevenido diante o que presenciava, recuou, passo a passo, sem fazer barulho...


Aquela cobiçada mulher parecia uma princesa em um reino de fantasias, uma cinderela no bosque dormindo tranqüila, uma criança feito uma flor em um jardim...


Distante daquele objeto de prazer, fetiche sexual, fêmea em sedução e lascívias, desejada prenda de ávidos machos, naquele palco de ilusão e solidão de tantos boêmios, nos  alvos seios em farto corpo, estrela absoluta na constelação de neons do meretrício, disputada, cobiçada, de todas a mais cara, devassa, naquele íntimo universo parecia uma inocente menina de ninguém...  



segunda-feira, 26 de janeiro de 2015





A BELA FERA

Dos atônitos olhos juvenis
Do capiau que aqui chegou
Curioso/temeroso
Dos alaridos, sirenes, gritos
Acostumando seus sentidos
Com a barafunda capital
Trazendo na bagagem
Saudades da cidade de origem
Tendo vertigens arranha-céus
E nas manchetes dos jornais
Tantos fatos noticiados
Miscelânea de graças e dores
Como droga inoculada
Fui ficando, dependendo,
De sua tresloucada rotina
Dia e noite
Ou noite dia
Sem intervalos
Das multidões rápidas
Formigas em trabalho
Céu azul ora cinzento
E feito mais um
Em suas entranhas
Cá aportei para ficar...

(Parabéns, São Paulo,461 anos, 25/01/2015.)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015


     

Contos de Verão" - Edição Especial 2015

O jovem velho folião

 


Era justamente na festa dos tímidos, o carnaval, que aquele jovem desengonçado, cheio de acnes denunciando sua puberdade e seus complexos, resolvia soltar-se. Há muito tentava frequentar salões de baile, porém sua timidez não o permitia  tirar nenhuma garota para  acompanhá-lo, ficando frustrado. Sentia-se um desastre, repudiava danceterias, talvez por usar lentes de contato, e o escuro dos salões, com luzes coloridas o incomodasse sobremaneira, ou, ainda pior, percebera que o próprio som, em alto volume, não o apetecia, aliás, o desnorteava. Assim sentia-se um jovem velho, arredio aos convites próprios aos de sua adolescência; era, por assim dizer, um peixe fora da água. Os livros eram o refúgio, mas eles, por si só, o alimentava de imaginações não o supria, todavia, de suas necessidades de convívio social, pelo contrário o afastava das vivências coletivas. Distanciando-o dos colegas de escola e de pessoas outras de sua faixa etária, sempre apresentando-se compenetrado e sisudo, tido como pernóstico e metido a intelectual. Sentia-se evitado pelos mais próximos, a considerá-lo estranho e inadequado. Ele na verdade cansava-se da vulgaridade de tantos assuntos, além de repudiar as gírias e conversas levianas,  freqüentes nesses grupos. Cedo percebera que era só, entregue às fugas nas letras de grandes autores, alimentando seu universo onírico e tristemente solitário. O que o encantava eram as marchinhas carnavalescas, pois lhe traziam a sensação de que nos salões decorados, todos os adultos, por algumas horas, pareciam inocentes crianças naquelas danças e fantasias. Não que fosse puritano ou infantil, ou que não o alimentasse o desejo típico de qualquer rapaz de sua pouca idade, longe disso. Aquelas considerações era o alimento de suas cogitações mais literárias que reais, porém necessárias para a sua visão de mundo, concessão imposta a si mesmo para poder se aproximar dos semelhantes sem sentir-se um estranho no ninho. Na infância os pais os levavam, a ele e aos irmãos, nas matinês carnavalescas, sendo as letras das canções conhecidas e tradicionais, o que facilitava a sua interação ao ambiente. Ocultos sob máscaras, confetes e serpentinas, em uníssonas vozes entoando deliciosas canções maliciosas, algumas, mas com tons pueris, assim codificava aquele universo, onde se permitia aventurar vencendo suas injustificáveis resistências. Nenhuma outra ocasião lhe parecia mais propícia que nos festejos de momo, nos salões decorados. A agitação não cobrava uma coreografia a ser seguida, bastava adentrar na multidão e, confundido com ela, seguir os foliões, ninguém observava ninguém, todos pareciam brincar despreocupadamente, cenário ideal para enturmar-se na folia, esbaldando, e, até, permitindo-se, curiosamente, sambar alguns passos, algo inédito para sua própria surpresa. Não havia cenário mais propício para desafiar a sua detestável timidez. Mas, embora tentando divertir-se  seu senso crítico não lhe dava folga, sempre observando as pessoas e tirando conclusões, inspirando-se, quando o que desejava era fugir de si mesmo, buscando uma semelhança de atitude própria à sua juventude. Assim, no vai vem, na aparente descontração, conjecturava com seus botões, a contra gosto: “ bailamos com nossas imagens, arsenal de disfarces e ritos, como nos apresentamos. Celebramos as cerimônias em mesuras programadas e em risos previsíveis (momento em que chegou a pensar em parar e procurar um guardanapo de papel para anotações, felizmente desistiu, afinal apenas desejava se esquecer, conviver com os outros, sociabilizar-se), contudo, o pensamento analítico de tal forma impregnado em sua conduta costumeira, insistia. Sorria com todos registrando detalhes na mania de analisá-los de forma compulsiva... “Maquiagem retirada, cara limpa, lavada, sem fugas, artifícios, neons e frenesis, somente o íntimo desnudo, implacável, ainda podemos fugir, nos anestesiar, rir, dançar, cantar, darmos asas acreditando na fugaz alegria, deitarmos embriagados e ressonarmos. Se, contudo, insistirmos, nos atrevermos, arriscarmos nas dores do autoconhecimento,  nos apresentaremos inclementes a nós mesmos”. Neuroticamente, parecia uma terapia aquele exame consciencial e tormentoso de cada momento, não importando o inusitado do momento e  local.
A roda crescia, conclamando a todos a engrossá-la em deliciosos apelos, ele seguia desenvolto e perseguindo, braços no ombro da foliona à frente, a corrente humana que se estendia dando voltas no salão. Breve pausa, os olhares se encontrando, ele e a menina de um sorriso encantador e, encabulado, suado, camiseta colada no corpo e diante a uma princesa de olhos graúdos e negros, como a cabeleira lisa e a tez morena clara. No aperto da entusiasmada multidão, rostos próximos, não havendo como evitar o contato, tão desejado e querido. Gracejos, o sentir do perfume da fêmea, o par continuava a brincar , como se sentissem a respiração um do outro. Jamais imaginaria o que estava acontecendo, via-se correspondido e esmorecia seus receios e nem se reconhecia tão solto e desinibido. O seu lado inquiridor e analista cedia aos ímpetos do jovem sedento de emoções, querendo  viver e gozar a sua juventude. Os braços segurando a cintura da parceira, trajando uma bermuda e uma corpete deixando o belo corpo à mostra. Que bela companhia, não queria acordar daquele momento único. Seguiram a noite toda juntos, falaria o menos possível temendo assustá-la com sua prosa adulta e aborrecida, alheia à sua imagem jovial. No burburinho não  precisava se expor, apenas a troca de olhares e de sorrisos. Não queria por nada quebrar o encanto, temia falar e assustá-la, ou mesmo desiludir-se ao ouvi-la, bastava vê-la tão bela e sedutora. A atração dava-se no silêncio dos olhares, nos sorrisos embevecidos, no que era  correspondido. Fim de noite, beijinhos trocados, emeios e promessas de se encontrarem em algum dia, a combinar.
Ao chegar em casa, nas primeiras horas do dia, ainda as lembranças da musa morena e cativante, o sono distante. Ligou a televisão e, absorto, sua mente girava e codificava o que via sempre em abstrações versificadas, comumente encontrada em livros literários. Parecia que a sua paixão, a leitura, o estava condicionando e estreitando sua própria existência, ao contrário do que deveria ser. Na solidão, apenas seu lado crítico se enaltecia, como se fosse um pesquisador da alma humana, atrevendo-se a análises e conclusões. Aquela parecia ser a causa de seu isolamento, seu cárcere pessoal.

  
Ao ver os blocos focalizados pelas lentes da emissora, passavam as escolas de samba, no fervor das suas alas e porta-bandeiras.  Sua ótica poeta e analítica, desperta, compondo mentalmente seus versos livres, e tristes. “Meu bloco na rua aclamado. Vibrante, cantante, emocionante. Mesclado às emoções desse povo. Seus lamentos, prantos feito encantos. Artistas por momentos, desdobrados na avenida, em fogos de artifícios, suas alegrias e alegorias. Samba nos pés, gemendo, na evolução da bateria. Suores e lágrimas, mescladas, na passarela da vida. São purpurinas, reinos dos foliões, castelos de magias. Cada qual no seu brilho, estrelas por instantes. Aplausos, os anônimos em destaque, a arquibancada no palco. Reviravoltas, piruetas, os frenesis, esquecidas dores nas efêmeras euforias.
Em cada noite uma nova musa, todas passageiras, nos bolsos números de telefones, endereços eletrônicos, nunca respondidos. Uma coisa era adentrar na massa alegre e despreocupada, onde se misturava no anonimato, não significando coragem para dar seguimento a algo mais concreto. Chegou a discar, algumas vezes, mas apenas ouvindo as vozes, silenciando-se. Era um misantropo sem querer sê-lo, uma personagem que vagava naquelas noites, ganhando vida e alma misturado na multidão, sem enfrentar a si mesmo. Na confusão da brincadeira era atuante, na individualidade  uma fortaleza intransponível.
Na última noite, sempre chegando ao amanhecer, depois de ter vibrado e cantado, inclusive conquistado tantos corações femininos, ligou a televisão registrando os momentos finais da quarta-feira de cinzas.
“Despidas as fantasias, descidos dos pedestais, reinados nos salões, pierrôs, arlequins e colombinas, lembrados em confetes e serpentinas. Astros no asfalto, alas das baianas, mestre escola, porta –bandeiras, a dispersão dos carros alegóricos, a debandada das arquibancadas. Silêncio nos trios elétricos, dispersa a vibrante multidão, desfeitas as alegorias, restos espalhados pelos cantos das avenidas, vestígios das folias. Um povo, um exército, homens e mulheres, retornando a seus postos, na lida dos dias, anônimos heróis, pondo a engrenagem a girar, até a próxima convocação, para a alegria e a chamada geral. Sonhos e magias, arrimos a suportar as labutas de cada sina.
Veio o sono, desligou-se, ele e a TV, foi dormir. Talvez ousasse com mais coragem no próximo carnaval...

 
 
  PUBLICADO NO BLOG DO LIMA COELHO -Contos, Crônicas, Poesias e Artigos Literários, São Luiz/MA (+ de sete milhões de acessos na internet),  Em 08/02/2013, ilustrações de MEL ALECRIM, poetisa e contista.


domingo, 28 de dezembro de 2014


REVELAÇÃO

O amor tira a venda
Desvenda
O que importa
Escancara a porta

E nos apresenta
A nós, assenta
Poeiras e fumaça,
E a tristeza rechaça ...

MOMENTOS DE PAZ...


Por que a emoção
sufoca em orações
devoção evocativa
luz, paz, compreensão ?

Invisíveis, sensíveis
Seres nos visitam
Nestes solilóquios,
Unindo nossos corações

E a dor sentida
Lágrima furtiva
Esvai-se
Na face iluminada
Esperanças e Paz...

JANELAS



Cenários se mostram
Sentidos transportam
Asas às reflexões
Alcançam distâncias
Infinitas lembranças
Reais ou imaginárias
Abertas no íntimo
Aladas em sonhos
A paz sonhada
Rostos amados
Saudosos, lembrados,
Presentes na ausência


Momentos vislumbrados
Atuais ou passados
Sensações que comprazem


Alegrias em cantilenas
Pardais em arruaças
Sorrisos inocentes
vida tão simples
Multicolorida
Instantes desejados...

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014






Publicado em livro na antologia MISTICISMO e FANATISMO no CONTO BRASILEIRO - editora CBJE - Rio de Janeiro-RJ, lançamento fevereiro de 2015.


*Selecionado como um dos melhores contos da editora publicado entre out/2014 a set/2015



L A B I R I N T O S






Pela janela avistava-se a silhueta, indo e vindo, perambulando, luz acessa demonstrando  a vigília e ausência de sono. Destoava o brilho  na torre de um mar de janelas obscuras, escuras na noite, onde todos dormem, menos aquela figura, destacando-se naquele edifício, pequeno farol no escuro da madrugada. Sua imagem se agigantava com o esvoaçar das cortinas, diante a janela aberta.
Lampejo persistente, alerta nervoso, meio da noite, de repente, chamando a atenção pela luminosidade destoante do restante, estrela solitária realçada como um ponto na escuridão. Faísca em detalhe no todo de um edifício dormente.
Insone, andar impaciente, passos consumidos, o que ocorria com aquele homem, num vaivém constante e ininterrupto, sombra babélica a andar à esmo, destacando-se do breu do anonimato como um vaga-lume? 
Indolente ente, na solidão  em ânimo doente, ou de si ausente, na saudades de alguém, na distância presente, será?
Apenas cogitações alheias, buscando razões para se entender aquela situação atípica e preocupante. O certo é que se encontrava sozinho naquela cena destacada contra a luz, entre as esvoaçantes cortinas. Não se percebia outra presença, tampouco parecia conversar com outro alguém. Apenas os cigarros acendidos um após o outro. Clarão que evidencia a dor de um Ser aparentando sofrer em solilóquios, indiferente ao cansaço da vigília prolongada na madrugada. Em que mares navega aquele barco à deriva, em tormentos íntimos?  Donde viria a extenuante ida e vinda, em rápidas pausas, onde debruçava-se  no parapeito alheio a fitar o nada. Estremecimento, tentaria contra si  jogando-se daquela altura?. Não se saberia, pois voltava a andar sempre indo e vindo. Suas mãos tentava deter os cabelos volumosos a teimarem  cair pela testa, fustigados pelo vento da noite amena.
Gesticulava, andando pelos cômodos, sua sombra em contraste com a luz se desenhava pelas cortinas, denotando agitação, retornando sempre à sala, apenas uma imagem de um homem só em suas aflições. Nos gestos  transpira sua dor em gritos mudos, imagem fantasma com a mente inquieta, talvez doidivanas, quem saberia? .
Camundongo de laboratório em experimentos, labirintos em intramuros, guerreando consigo mesmo, duelos íntimos. Ecos mudos, irreais, sopitando especulações de sua causa, leme e norte, folha ao vento, barco à deriva, desatinos?. Quantas impressões passavam aquela visão, na impotência da interferência de estranhos, restava o assistir, compungido, o embate surreal de alguém consigo mesmo. Cinema mudo, ator em alucinante monólogo, visto por outros olhos à distância, observando seu andar tresloucado, suas dores presumidas. Enredo funesto,  questionado ao sabor de quem o assistia, impassível, tentando entendê-lo naquela  encenação. No reflexo de suas inquietações, a compreensão de alguns, inspirando compaixão, e de tantos a desmerecê-lo, julgando-o levianamente sem atinar com suas razões.
Mundo íntimo, conflitos em aflitivos gritos reprimidos, alucinados gestos, desconexos a terceiros e impotentes espectadores de sua angústia e desditas. 
Postado na janela, a retina como a registrar o movimento das ruas, pausas raras entre o repetitivo ir e vir, na impassível postura de desatento observador. Vislumbrado, parecendo atento e a um só tempo alheio, à vida que acontecia além.
Da janela, via-se a rua e dela se vislumbrava o homem, debruçado no parapeito, a tudo assistia parecendo nada ver...Como do convés de um navio, na altivez de um comandante e na distância da indiferença. Nos vagos gestos, olhos distantes, parecia absorto em devaneios, entre um cigarro e outro.
Seria um tresloucado, prestes a algum ato suicida? Tênues fios delimitam a sanidade. Do sano, certezas, convicções. Do insano, desvarios, alucinações,  Ser que vagueia entre duas estações, obscuras e claras, na mente açodada, estreitos caminhos, desvios trilhados em ilusões e enganos...
Mente desprevenida, desatenta, fisgada pela depressão, inoculada, sutil como um ofídio, insinua e abocanha, leva a paz, é tristonha. Descolore a luz, embaça, tira a graça é enfadonha, suga energias e exaure,aproxima-se  malsã imperceptível, esgueira-se e domina. Abismos em dores, anônimos sintomas, diagnósticos e cismas. Diáfana e maléfica, contaminando, virulentas chagas na alma. Entorpece, anestesia em profunda melancolia, trevas em profusão. Achega-se à vítima, a doença a entrelaça, são duas e únicas, numa conjunção simbiótica, hospedeiro e parasita. Cadafalso e verdugo, no fio da navalha, sanidade em risco.
Um solitário na imensidão de semelhantes, ilha na multidão, caminhos iguais, destinos diversos, caminhantes do mesmo tempo, em mundos paralelos, experiências e dores,  cicatrizes e crescimentos...
Quedará vencido pelo torpor do sono e cansaço antes do raiar do dia, para viver  no amanhã  nascente a sua história de pacato cidadão no emaranhado das funções que a vida coloca neste palco de inúmeros papéis a serem vividos e desempenhados,  entre atos sucessivos e intermináveis... Até o fim!


* Publicado no BLOG DO LIMA COELHO - Contos, Crônicas, Poesias e Artigos Literários - São Luiz/MA ( perto dos 7 milhões de acessos na internet)

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Texto selecionado para figurar na Antologia CONTOS ARDENTES, editora CBJE - Rio de Janeiro-RJ, lançamento Janeiro de 2015


Publicado na ANTOLOGIA PALAVRAS SEM FRONTEIRAS, BRASIL - ARGENTINA, 2011.









ESTRELA CADENTE


A bateria deu o sinal, ensurdecendo a quadra de esportes, parece que voltou em momentos a olhar o céu estrelado, quando, em sonhos, pensava em desfilar na avenida representando a comunidade do samba.

Naquelas noites, fitando o infinito, a algaravia ritmada dos ensaios eram coisas utópicas, de realidade distante, da laje olhava o firmamento admirando as estrelas, parecia que ser parte da comunidade entusiasmada era sonho impossível para ela.

Mariana Vasconcelos ! A voz entoou no alto falante dando o veredicto do concurso, as pernas tremeram, o chão parecia abrir-se diante tanta emoção. Aplausos entusiasmados da platéia, vencera várias concorrentes, sambistas veteranas na passarela.

Os olhos amendoados, nos cachos negros da cabeleira, mostrando os alvos e perfeitos dentes em lábios carnudos e sensuais, moldado o rosto em sobrancelhas que pareciam desenhadas. O tamanho ideal, as pernas torneadas, a tez aveludada de cor de canela, no bumbum arrebitado. Despontava a nova estrela da festa, vinha para brilhar e se destacar. 

- Você tem chances, prima, por que viver sonhando e não ir atrás ? falava sabendo da aspiração da outra. Quantos ensaios individuais, sambando na laje, ouvindo o som da bateria que chegava de longe ? Agora ali estava, escolhida, para reinar na avenida.

- Presta atenção, Mariana, a cliente entrou na loja, vá ver se ela precisa de alguma coisa ! – falou a gerente, trazendo-a ao solo depois de orbitar as estrelas.

A escola dava a oportunidade da escolhida desfilar, mas as despesas com a fantasia era exclusiva da candidata, afinal não havia recursos para custear todos os participantes, ainda que fossem os destaques. Tinha uma pequena verba, irrisória, para a comissão de frente, restando pouco para as passistas.

De novo a prima a impulsionando: já sei, temos muitos amigos, vamos fazer uma rifa e levantar o dinheiro para a alegoria, nada de morrer na praia... Mas, rifar o quê ? Os olhos correram pelas paredes dos cômodos desnudos da alvenaria e nada via que pudesse dispor de interesse a alguém, na condição de um prêmio.

Assim, do final de semana de rainha, aplaudida, passava a viver o inferno da ansiedade, todas as alternativas para arrecadar o dinheiro fulguravam por instantes e se mostravam inúteis a seguir.
Notando o ar distante e preocupado, a gerente da loja, que em raros momentos se mostrava humana, a interpelou: algum problema com você? parece preocupada, calada, não é de seu feitio esse silêncio... Falou do caso sem muito interesse, apenas para satisfazer a curiosidade da chefe, sem esperar retorno algum.

Os dias transcorriam rápido, os ensaios cada vez mais intensos, a data para se apresentar com a fantasia expirava, e nada. Teria, em último caso, de renunciar ao posto. O salário de balconista mal dava para as despesas e a ajuda em casa, não sobrava nada que pudesse gastar naquele empreendimento sonhado. Haveriam outros carnavais, ganhou uma vez, ganharia outras, mas, será que dariam outra oportunidade depois da desistência ? E tudo voltava à estaca zero, nenhuma solução a vista.

Entretida em suas preocupações, não deu pela presença do Sr. Arthur, o patrão.
-Oi, Mariana, parabéns, soube que foi a escolhida para representar a escola no carnaval... (olhando com certa malícia pelo corpo dela) – você mereceu a escolha, com esse visual... 

Homem sério, fechado em si, jamais se dera a comentários íntimos com qualquer das várias funcionárias, de se estranhar o imprevisto comportamento do patrão, que, aliás, amiudava nos comentários, vindo, com freqüência, para o térreo da loja, saindo de sua toca do escritório no mezanino. Mais estranho ainda foi ser chamada, antes do fechamento da loja, ao escritório.

- O Sr. chamou ? Já estava me aprontando para ir embora...

- Estava pensando, uma funcionária minha em destaque na Escola de Samba...

- Fique despreocupado, Sr. Arthur, não vai atrapalhar em nada meu serviço, os ensaios são de noite, o desfile será no feriado...( falou apreensiva, antevendo o pior. Só faltava, agora, perder o emprego que fora tão difícil de conseguir, jamais voltaria para serviços domésticos ou cuidar de crianças... )

- Claro que não estava pensando que vai atrapalhar, apenas que poderíamos unir o útil ao agradável...

- Não estou entendendo...(apertava a bolsa com força, como se buscasse ajuda). 

- Poderíamos aproveitar sua popularidade no carnaval e promovermos a loja...

- Sério ?! ( não acreditava no que ouvia, era bom demais para ser verdade)

- Estava pensando em tirar algumas fotos suas e colocarmos em pôsteres pelo estabelecimento, a comunidade ficará sabendo que estamos incentivando e promovendo a Escola da região...Nossa funcionária, afinal, será a destaque, não é ?

- Não sei ainda... estou pensando seriamente em desistir.

- Mas, por que ?! Oportunidades dessas não surgem sempre, você não disputou e venceu ?

- Mas não tenho recursos para fazer a fantasia...

- Poderemos acertar isso, como pagamento pelo uso da imagem, um patrocínio, entendeu ?

- ( já tinha ouvido falar em patrocínio, mas nunca entendeu como funcionava) – Não entendo bem disso...

- Nós bancamos as despesas com a fantasia e você nos cede os direitos de explorar a sua imagem nas fotos, simples assim...

- Jura ?! ( parecia que o sonho se materializava quando tudo parecia perdido)

Chegou em casa com o coração alvoroçado, mal conseguia expressar para a prima a novidade.

- É um sonho, Mariana, um sonho que se realiza – comemorou a parente.

O calendário parecia voar, com a verba disponibilizada, a costureira acertava os detalhes finais da roupa, a sandália prateada, de plataforma, já estava guardada na caixa sobre o guarda-roupas. 

O que a incomodava, contudo, era a insistência do Sr. Arthur em chamá-la por qualquer razão ao mezanino, fato, aliás, que não passava despercebido pela chefe, a quem cabia passar a ordem para ela subir ao escritório.

Resolveu que iria pessoalmente assisti-la nos ensaios, melhor, que a levaria em seu carro, como sua protegida.

- Mas, seu Arthur, a Escola é próxima de casa, a comunidade me conhece, são todos amigos, de maneira que não tenho necessidade de ser acompanhada, ainda mais chegar de carro...

Não adiantaram os argumentos, tudo aconteceu como ele queria. Não perdeu nenhum dos ensaios a partir de então, inclusive a esperando para levá-la para casa.

Sempre respeitoso, após a saída da Escola, a convidou para irem a uma pizzaria, estava uma noite quente e convidativa para um chope, alegou que precisavam comemorar a parceria. As fotos em breve estariam espalhadas pelo estabelecimento comercial e pela vizinhança, ficaram ótimas, divulgavam a Escola e enalteciam a Loja patrocinadora, tudo perfeito. A musa, em trajes sucintos, exibia todo o seu corpo escultural, em poses de passista, com direito a porta estandarte.

Mais a vontade, despida a carantonha de chefe, animado pela bebida, pareceu até mais jovem na descontração. E, quando a cisma dela parecia ter se desanuviado, na verdade fora avisada pelas colegas de que homem é tudo igual, não dão ponto sem nó, tudo se confirmava, como se cobrasse a fatura das despesas. A leitura telepática vinha dos olhos desejosos, fitando, obsessivo, o belo par de pernas, o decote despreocupado, as mãos abusadas que não se continham.

Mariana viu-se em constrangedora situação, lembrando a Cinderela no badalar das 24 horas, a carruagem de princesa transformada em abóbora. Pensando rápido em como deter os ímpetos já exarcerbados do patrão, desferiu-lhe uma bofetada, atingindo não apenas o rosto dele mas desmoronando seus próprios sonhos. Levantou-se e saiu do bar, dirigindo-se, aturdida, para casa.

Ciente que reinaria absoluta na avenida, aplaudida nas arquibancadas, até a marca da chegada, após, seria uma estrela de vida curta, cadente, e, ainda, desempregada, sonhando com o próximo carnaval...


*SELECIONADO PARA FIGURAR NO LIVRO "PALAVRAS SEM FRONTEIRAS, DO BRASIL PARA A ARGENTINA", será distribuido gratuitamente na feira do livro de Buenos Aires na Argentina no período de 1º á 9 de maio deste ano, o livro terá lançamento previsto no Brasil para dia 10 de junho de 2011, na Câmara Municipal de Niterói, juntamente com a premiação do salão de artes da AFBA, com o apoio cultural da AFBA , Associação Fluminense de Belas Artes, presidida pelo Chanceler De Luna Freire e o apoio da ALG (Academia de letras de Goiás Velho), presidida por Agnes Castro e organizada por Izabelle Valladares com o apoio do Cônsul do Poetas Del Mondo Rodrigo Poeta. Edição em língua portuguesa e espanhola.

sábado, 18 de outubro de 2014




Publicado em livro na antologia CONTOS FANTÁSTICOS - edição especial2014 - Editora CBJE - Rio de Janeiro-RJ, janeiro de 2014 -
 Conto escolhido para figurar na edição especial PANORAMA LITERÁRIO BRASILEIRO, dentre os melhores contos publicados pela editora em seleção feita entre os meses de outubro/2013 a setembro/2014

 


Ediloy A.C.Ferraro 
São Paulo / SP

Sombras na noite

Muitos recolhem-se , depois da jornada diária de trabalho, as vias públicas, aos poucos, recebem novos transeuntes, alguns a ficarem em suas esquinas, outros mais sofisticados em outros ambientes.
Figuras noturnas, clandestinas identidades, anseios palpitando em corações de corpos ardentes. Inebriados em busca de sensações, alucinadas procuras, angustiosos na ânsia insana de preencherem vazios da existência. Têm nas fisionomias traços risonhos, festivos, diferem de suas vidas à luz do sol, estão permissíveis às aventuras sem censuras.
Caminhantes nas tresloucadas idas, por noites insones, ocultas personagens no raiar dos dias. Assim é como se apresentam, em deboches, berloques de enfeites, acompanham a música que lhes tocam, Oferecem o calor de seus corpos mediante pagamento. Habitam sonhos dos desiludidos, cicerones nas madrugadas, alegres e festivas. Vagam como mariposas em torno da luz, notívagas dos prazeres. Personagens que tornam-se bizarras nas vestimentas impróprias às luzes do amanhecer, desambientadas no claro das ruas. Recolhem-se no alvorecer, como habitantes noturnos incomodadas na luz solar, feito morcegos.
Difusos raciocínios, obliterados nas bebidas, egos em desgovernos, dançam no ritmo dos desesperos, em gozos fluídos nas emoções inexistentes, aninhando carícias em corpos de aluguel. Mundo fantasioso, palco de ilusões, embalagem de purpurinas e neons, aparências que não denunciam os íntimos sofridos, distantes, moribundos. Calor emprestado, fátuo, efêmero, sentimentos não encontrados em nenhum Ser por empréstimos, não disponível e nem comercializado.
Trânsfugas embevecidos pelos sentidos da matéria, rescendendo odores etílicos, brindes em lágrimas disfarçadas em risos, crianças assustadas, no ritmo da valsa dos desesperados. Companheiros de solidão, uivos lamentos de lobos distantes da alcateia, envolvidos na atmosfera inebriante das transitórias alegrias. Alcoólicos ares empesteando os olfatos, mentes destravadas a extravasarem suas mágoas e lamúrias. Balanços anestesiados de seus rancores, lembranças funestas, hilárias e doloridas. Anestesiados, acalmados em cada gole em garrafas vazias, solitários murmúrios. Frenesis dos tímidos, ébrios a entoarem seus cânticos desafinados e desconexos, em falsas demonstrações eufóricas. Caricatas figuras das alegrias compradas, vernizes de realidades ocultas, exóticos na claridade solar. Assembleia de desatinados, dores manifestas em teores de nicotina e álcool, situações hilárias, vivências e amores desencontrados, pilhérias e insucessos.
Universos restritos nos vazios das garrafas entornadas, nos hálitos das bílis saturadas. Em solitárias angústias íntimas, aparentemente compartilhadas, cada qual uma existência e seus enredos, risadas amargas, piedades de si próprios, estrelas embaçadas nos brilhos opacos dos vidros diáfanos dos copos.
Burlesca reunião de convivas solitários em si, brindam e gritam, chorando no íntimo. Reunião de indivíduos, semelhantes em seus desatinos, imersos cada qual em seus mundos pessoais e intransponíveis, alheios às análises de outros olhos.
Delírios rápidos em fugidias sensações. As trevas não são externas, as das aparências são ausências de luz facilmente disfarçadas, porém as internas são labirintos exigindo soluções, num pêndulo oscilando nas duas estações, obscuras e claras, entre tênues fios da sanidade insana. Largos são os caminhos em desvios trilhados por ilusões e enganos, mente açodada, incomodada no fio da navalha. A ostentarem um arsenal de disfarces convincentes, disponíveis em qualquer ocasião, escamoteando visíveis perturbações. Contudo, os ecos ecoam de dentro, assustadores, reivindicando saídas, respiram agônicos, turbilhonam as entranhas.
Os desafios não se alteram com os espetáculos dos cenários ilusórios, são perenes e constantes buscas, não importa onde se encontrem. Somos os nossos próprios enigmas a serem decifrados, conscientes ou não. Os fios das meadas estão em nós, incrustados, indeléveis, a exporem suas garras esculpindo em dores. Labirintos intramuros, em duelos íntimos, ecos mudos, insanos, irreais, folhas nas tempestades, barcos à deriva, desatinos, expostos nos íntimos em aparentes disfarces externos e convincentes.
Miscelânea de impressões, mosaico controvertido, desprovido de sentido lógico. Imagens desfocadas, fragmentos de momentos em arroubos ensandecidos. Repentes inusitados, despropositados, inconvenientes. Passam rápidos, exigindo goles a nutri-los, ágeis como os ventos,deleites fugazes,difusos, uivantes, tristonhos...
Nas nuances sombrias encontram-se as musas habitantes das noites, vendendo fantasias. São refúgios para os tédios de insossas vidas, no firmamento fantasioso de estrelas e lua cheia, antes pântanos de ácidas visões, inebriando os sentidos famintos de seduções. De jardins multicoloridos em flores, traem-se em cheiros nauseantes de pétalas pútridas, renegando frescores de vivas cores. Nem arco-íris pós vendavais a suavizarem os céus nas imprecisões dos temporais, nas telas surreais os alucinados degustadores das ilusões mitigam os sofreres, oferecidos como prazeres mundanos, em moeda corrente.
Vaga o ébrio nas noitadas, o corpo chumbado ao solo sob o peso da prostração, a mente confusa, detido no escafandro da carne encharcada, como um sapo, no brejo pantanoso, apaixonado pela lua distante no firmamento. Anseia, impotente, demente, realçar luzes onde há trevas, somente.
Bailando em seus disfarces e ritos, como se apresentam. Celebrando cerimônias em mesuras programadas e em risos previsíveis. E, diante a si, a sós, maquiagem retirada, cara limpa, lavada, sem fugas, artifícios, despidos de alegorias, somente o íntimo escancarado, implacável. Ainda podem fugir, se anestesiando, rir, dançar, cantar, acreditar na fugaz alegria e embriagados ressonarem. O mais que terão será um sono pesado, até o amanhecer das rotinas pacíficas e entediadas de cada dia, retomando as máscaras das conveniências socialmente aceitas.
Parece que apenas no enlevo das bebedeiras, em instantes de perturbável lucidez, arriscamos nas dores e nos apresentamos a nós mesmos, personagens oscilantes entre luzes e trevas...