Na negação, amiúde,
Expondo emoções
Lembrando a morte
Enaltecendo a vida
Na doença
A saúde
Em dores
As alegrias
Poetas e escritores
Melodramáticos
Valem-se das trevas
Salientando a luz...
MORTA SEREI ÀRVORE SEREI TRONCO SEREI FRONDE. NÃO MORRE AQUELE QUE DEIXOU NA TERRA A MELODIA DE SEU CÃNTICO NA MÚSICA DE SEUS VERSOS. Cora Coralina, poetisa (1869-1985)
domingo, 17 de julho de 2011
sábado, 16 de julho de 2011
E S C R E V E R
não sejam
charadas
labirintos
tampouco
óbvio,
presumido
liturgia
adornada
no simples
apreensão
do etéreo
mistérios
sussurros
ruídos
sons dos ventos...
charadas
labirintos
tampouco
óbvio,
presumido
liturgia
adornada
no simples
apreensão
do etéreo
mistérios
sussurros
ruídos
sons dos ventos...
terça-feira, 12 de julho de 2011
PLATÔNICO DESVARIO
Como dói este sentir enclausurado em si mesmo,
murmurado, antes soluçado, asfixiado pelo desejo
e encantamento, a arrastar-nos, por vezes,
em precipícios, silenciando a fogo
a consumir-nos por inteiro…
E pensar que a inspiração chegou-me
das dores lamentadas por um poeta antigo
cujas lágrimas permanecem e incendeiam
revivendo sua física ausência
as verdades cruciantes
de suas dores trazidas...
Antes, bem além destes tempos,
Corações apaixonados desdobraram
E na mudez dos sentimentos represados
Lograram vida, imortalizando sensações...
murmurado, antes soluçado, asfixiado pelo desejo
e encantamento, a arrastar-nos, por vezes,
em precipícios, silenciando a fogo
a consumir-nos por inteiro…
E pensar que a inspiração chegou-me
das dores lamentadas por um poeta antigo
cujas lágrimas permanecem e incendeiam
revivendo sua física ausência
as verdades cruciantes
de suas dores trazidas...
Antes, bem além destes tempos,
Corações apaixonados desdobraram
E na mudez dos sentimentos represados
Lograram vida, imortalizando sensações...
sábado, 9 de julho de 2011
DORES DE AMOR
Importa menos
O nome dela ou dele
Às dores pretextadas
Buscando culpados
Dos amores sofridos
Em alheios ombros
Antes figurantes
De dramas íntimos
Intrínsecos, doloridos
Na incompreensão da dor
A perda lamentada
Revela antes, a si mesmo...
O nome dela ou dele
Às dores pretextadas
Buscando culpados
Dos amores sofridos
Em alheios ombros
Transferência indevida
Razões dos desenganos
Dando forma e sentido
Antes figurantes
De dramas íntimos
Intrínsecos, doloridos
Na incompreensão da dor
A perda lamentada
Revela antes, a si mesmo...
sexta-feira, 8 de julho de 2011
LÁGRIMAS CANTADAS
Das dores cantante
Sobraçado à viola
Suplicada,murmurante
Amores esvaídos
Decantados,lembrados
Devaneios doloridos
Companheiro instrumento
Das mágoas, cúmplice
Extensão de seu lamento
Em duo
lembrares anelos
Revivem emoções
Gemidos em versos singelos
sentimentos, de penar arduo
Confrangem corações...
Sobraçado à viola
Suplicada,murmurante
Amores esvaídos
Decantados,lembrados
Devaneios doloridos
Companheiro instrumento
Das mágoas, cúmplice
Extensão de seu lamento
Em duo
lembrares anelos
Revivem emoções
Gemidos em versos singelos
sentimentos, de penar arduo
Confrangem corações...
quinta-feira, 7 de julho de 2011
SE...
Não fora a condicionante
Então possível seria
trocar o tédio dos dias
Em sonhos e magias
Realidades permutadas
Nos coloridos dos pincéis
Adornando em formas
Belezas idealizadas
E esta azáfama aturdida
Reboliços de cada dia
Não dominariam impositivas
Esquecidas por aborrecidas
Se assim fosse, todavia,
Qual distinção haveria
Entre as duas situações
O real e as fantasias ?...
Então possível seria
trocar o tédio dos dias
Em sonhos e magias
Realidades permutadas
Nos coloridos dos pincéis
Adornando em formas
Belezas idealizadas
E esta azáfama aturdida
Reboliços de cada dia
Não dominariam impositivas
Esquecidas por aborrecidas
Se assim fosse, todavia,
Qual distinção haveria
Entre as duas situações
O real e as fantasias ?...
terça-feira, 5 de julho de 2011
LIBERTAÇÃO
Leve tudo de seu
O que lhe pertence
E mais o que quiser
Leve as marcas
Sua presença na ausência
Lembranças e detalhes
Não esqueça o vazio,
As saudades, dor atroz,
Esquecido passado,
Talvez então te perdoe
De você a falta
Aguda, doída, que me faz...
O que lhe pertence
E mais o que quiser
Leve as marcas
Sua presença na ausência
Lembranças e detalhes
Não esqueça o vazio,
As saudades, dor atroz,
Esquecido passado,
Talvez então te perdoe
De você a falta
Aguda, doída, que me faz...
domingo, 3 de julho de 2011
ARREMEDO DESAFINADO
não canto o amor,
por não sabê-lo,
arremedo de poeta
(sem sê-lo)
enalteço a dor
musa esquecida
destilando fel
(lira aborrecida)
nas contradições
adversas palavras
dicotômicas, opostas,
(trocadilhos em fundilhos)
antes alma penada,
desajuízada
mesclando sonhos
(em pesadelos)
música de um tom só
chinfrins entonações
talvez a nota dó
(verbais destrabelhos)...
por não sabê-lo,
arremedo de poeta
(sem sê-lo)
enalteço a dor
musa esquecida
destilando fel
(lira aborrecida)
nas contradições
adversas palavras
dicotômicas, opostas,
(trocadilhos em fundilhos)
antes alma penada,
desajuízada
mesclando sonhos
(em pesadelos)
música de um tom só
chinfrins entonações
talvez a nota dó
(verbais destrabelhos)...
quarta-feira, 29 de junho de 2011
CANTOS SOLITÁRIOS
Da enaltecida beleza
Dos sonhos decantada ?
Como se do crânio
Emanações sublimes
Alheios anseios fossem.
Em opostos campos
O real e as ilusões
Muletas, sendo, as fantasias
Nas venturas íngremes
Da realidade dura
Aos caminhantes, consolo.
Então, indago,
Por que as quimeras
Desdenhadas na travessia?
Não se fia o homem, apenas,
Á fome da matéria
Antes o alimenta
A beleza das cores
Entintando negrumes
Em calvários floridos
Imaginação vendo delícias
Em precipícios de lágrimas
Nutridas lutas em alegorias
Por que relegar a fantasiosos
Os que teimam enxergar luzes,
Estrelas em noites escuras ?...
* SELECIONADO PARA FIGURAR NA 80° ANTOLOGIA DE POETAS BRASILEIROS CONTEMPORÂNEOS, CBJE, RIO DE JANEIRO / RJ, JULHO 2011.
domingo, 19 de junho de 2011
O ÁLBUM DE FOTOGRAFIAS ( conto )
A maneira de enfrentar as crises, impedindo que ela se enveredasse por labirintos pessoais inescrutáveis, tal qual uma âncora, mantendo-a fixada em uma referência, o velho álbum de fotografias a retinha em suas divagações. Bastava deslizar suas mãos naquele repositório de memórias a levá-la em viagens pretéritas, manifestando em seu semblante suas emoções trazidas em cada imagem detalhando um tempo passado, sua história.
A doença avançara drasticamente, cada vez mais a levando para dentro de si mesma, no isolamento impenetrável a terceiros. Encolhia-se em seu mutismo, sem permitir acessos a outros. O mal de Azheimer manifesto, a princípio pela apatia diagnosticada como depressão, tendo origem na morte do filho de forma inesperada. O choque fora fatal ao seu psiquismo, fragilizada para enfrentar a tragédia, refugiava-se em seu interior.
Brotadas águas do íntimo, mágoas levadas em enxurradas, superadas, esquecidas, ou guardadas na alma. O brilho nas retinas denunciando sensações trazidas ao avistar cada fotografia, demonstrações passageiras, amenas ou intensas, em gestos faciais, incontidas lágrimas escorrendo, molhando, denotando alegrias e tristezas. Único contato com a realidade que, feito ostra, ocultava a pérola racional, mantendo poucas relações com a atualidade dos fatos, quase imperceptíveis.
As páginas do velho álbum tinham a magia de trazê-la, por instantes mágicos, a manifestar-se, por vezes trocando palavras com algum interlocutor, nem sempre presente. Via-se menina, sorridente, feliz, cantarolando cantigas, sorrisos esperançosos a iluminá-la, aparentando sanidade, não fora o tempo vivenciado em outras épocas. Não raro, parecia entreter-se em diálogos com falecidos mostrados naquela seleção de saudosos. Raras oportunidades em que se dirigia a quem estivesse próximo, narrando suas memórias, embevecida, como se voltasse de uma viagem interior secreta e partilhasse seus conflitos.
Aos poucos os parentes perceberam que aquilo a renascia, fazia-lhe bem, melhor que vê-la, apática, quase vegetativa, distante de qualquer participação. Aconselhados pela terapeuta que participassem de suas alucinações, fazendo-a menos só em seus labirintos difusos, trocando a atualidade com o passado.
As cãs dos cabelos manifestando-se prematuramente, o olhar ora longínquo e distante, por vezes revelando apreensões, necessidades de retornar às fantasias, como refúgio de não enfrentar a realidade. Pouco se deduzia, ao leigo, o que se passava naquela mente dividida entre as duas estações da existência, o passado e o presente.
Como se ela desdobrada, em torvelinhos, registrasse momentos anteriores, transportando-a a outros cenários, amenizando as chagas, limpando o verniz do passado, ressurgindo sentimentos represados. Vivos no pretérito ajudando- a a não soçobrar de vez, acalentando razões para sobreviver e não se distanciar na perda total da razão.
Desmemorizadas lembranças revividas, como um outro universo, sem a dor da ausência a impedindo de enfrentar seu aguilhão de desconsolos.
Ao vê-la, sopitavam os devaneios, onde criamos asas, voando além dos limites, em cenários utópicos, matizes em cores vivas diferindo da ocre paisagem. Nestas portas imaginárias, acalentando um porvir ajudando a vivenciar as rotinas alimentadas de esperanças, como crianças à espera do natal. Ilusões dadivosas, colheitas de sonhos, muletas na travessia, luzes nas trevas dos dias. Companhia e alento aos sós, flores nos caminhos íngremes, noites em temporais suavizados, vulcão interior, incandescente e hostil apascentado na tolerância e a mansuetude da paz. Antídotos gestados pelo próprio organismo para se salvaguardar das intempéries devastadoras. Crianças ocultas em seus refúgios, fugindo de seus perseguidores de pernas de pau, no reino da fantasia.
Assim, adentrando o insondável, permitindo-se hipóteses, talvez inverossímeis para quem não vivenciasse os fatos, mas necessárias para se entender um Ser prestes a sumir no varredouro da ilusão, perdendo conexões com a realidade. Talvez apenas restasse o corpo, pois a mente, aonde andaria ?
Naquele solo árido, fantasias eram flores nos caminhos, margeados de espinhos, nutrindo a terra seca de fertilizantes naturais e coloridos. Na tela escassa de luz, desenhavam-se alegorias de vivas cores, incendiando de fervor e de vida o que aparentemente nada existia. Lágrimas substituídas pelos risos, permutas de dores por alegrias.
Como se fora a vida minguar de repente, sem ideais a perseguir, flutuando à deriva, feito um barco, tramas sem enredos em fatos inconcretos. Aquilo registrava a certeza de que se respirar é preciso, sonhar, por vezes, é imprescindível. Nem mesmo a bela paisagem, amena, serena, colocada à janela, a trazia de volta, bafejada as faces em aromas de flores, como um beijo, acompanhada no vento brando nas cortinas.
Figura muda, dissociada de seu momento, ausente. Os ares primaveris rescendidos na brisa morna, vestígios de alguém ou de outras épocas, respirados brandamente, exalados. Página a página, vagarosamente, repetidas inúmeras vezes, em cada receptáculo onde via- se um desfilar de ausentes presentes em seu mundo pessoal e enigmático. Fluídas lembranças, traços indefinidos como pintura abstrata, nostalgias impregnadas na vivacidade dos olhares repentinos e fugazes.
Suas expressões, contudo, pareciam mergulhar em um mundo auspicioso aos seus anseios, pois a revitalizavam, os olhos transmitiam euforias inefáveis e não compartilhadas. Voava livre, desimpedida de amarras, no céu das suas fantasias, em sorrisos maravilhados. Uma menina revivendo tempos felizes e remotos, ou a lucidez de um espírito antevendo o paraíso ? Tudo cogitações impotentes de quem a observava, tentando traduzir o que sentia com suas próprias deduções desprovidas de qualquer fundamento lógico. Como, enfim, aferir o encanto com a medida da sensatez ? Onde as soluções medicamentosas, paliativas, pareciam infrutíferas, tudo parecia válido, compreensível, assimilável.
Aquele conjunto de velhas fotografias amareladas era o seu referencial, mantendo-a vinculada a alguma noção de tempo e espaço. Sem ele, por certo, a mente liberta vagaria em ignotas paragens, apenas a matéria plausível, envelhecendo, com pálidos registros das suas solitárias viagens desconhecidas...
sexta-feira, 17 de junho de 2011
AVENTURA NOTURNA (conto)

Raramente freqüentava qualquer bar, ainda mais sozinho. Mas a noite estava convidativa, fustigando a solidão para longe, convidando os sós para a festa. Suave noite de verão, bares abarrotados de notívagos a se refrescarem nos seus risos soltos animados pelos teores alcoólicos de sucessivos copos.
A mesa não era a melhor colocada, mas dizem que quem chega atrasado não pode pegar a janelinha no trem... Sentou-se e esperou pelo garçom trazendo um chope de gola larga, sorveu o líquido com a sede de um perdido no deserto, seria o primeiro de uma série. Olhares vasculham o ambiente, perscrutando os espaços, levando a mente a devaneios distantes, além da fixa visão. Como se reconhecendo a área, palmilhando o terreno em que se situava, sentindo o clima. Além dos alaridos dos convivas, entusiasmados em seus grupos, nada a identificar que soasse estranho, tudo perfeitamente reconhecível na alacridade daqueles momentos. Não era lugar requintado, apenas para encontros em turmas, para conversas descontraídas e namoros. O som, pelo menos, não irritava os tímpanos, soava brando, na voz de uma jovem com seu violão em acordes melodiosos. Tudo tranqüilo, ensejando que na companhia de uns goles encontraria um regalo em seu íntimo, imperturbável em seus solilóquios. Ali ficaria em seu mundinho respirando em haustos o sabor da tranqüilidade, não fosse a fisiológica necessidade de urinar, pois tudo que entra tem que sair, e, na contabilidade, tinha mais entradas que saídas, estava cheio.
Ocorre que a demanda por uma mesinha ficava acirrada, qualquer descuido poderia perder o trono, como em baile da vassoura que levam a sua dama e tomam a sua vez, deixando-o na tarefa de buscar nova companhia, no caso de um lugar privativo. E olhava para os lados como quem se vê cercado de ladrões, prontos a darem-lhe o golpe e o deixarem em pé, no desconforto. Mas bexiga contrafeita, cheia como balão de gás, incomodava outro tanto, reclamando alívio. Pensou em deixar algum objeto sobre a mesa, mas qual ? Era calor não levara blusa, nem guarda-chuva pois não tinha chuvas, a carteira – pensamento alucinado, nem pensar, por razões óbvias, seria um donativo. E agora, Mané ? as pernas já se encontravam como a querer reter o perigo de iminente inundação nas calças, que fazer ? Pensou em recorrer ao garçom, já suando nas têmporas, mas o via atazanado com a azáfama de tantos pedidos, equilibrista de bandeja repleta de copos e pratos, e desistia. Poderia, num extremo de generosidade, convidar alguém sozinho para partilhar a outra cadeira, na verdade a única sobrevivente, pois, além da sua, foram delicadamente requisitando as demais, mas o preço de perder a privacidade, exatamente o que buscava, o impedia do convite. Não se tratava de caridade, nem pensar, mas sim de alguém que garantisse a sua própria vaga ameaçada, pensou consigo mesmo: vão se os anéis ficam os dedos...
E assim, resoluto, fez sinal a um homem que bebia apoiado no balcão, sinal convidativo, com a cabeça, querendo ser sutil. O homem olhava para ele e não entendia a sua generosa intenção, com a insistência respondeu à distância, também em acenos, o que parecia ser não gostar de homens, era hétero, mostrava a aliança no dedo... que pavor, quisera fazer uma gentileza e foi tomado à conta de um perdido na noite à procura de um parceiro ? Corou-se de vergonha, pensou até em tirar satisfação, o que poderia ser perigoso, deixando vaga a cadeira. Que se danasse aquele ingrato ! Ainda se fosse um garboso garoto, mas um homem de meia idade... peraí, “garboso garoto”, se estranhava, seria o efeito da oitava rodada de bebidas ? Nem pensar ! Jamais poderia passar-lhe pela cabeça tal deslise, ia se benzendo para afastar inoportunos pensamentos, mas disfarçou. Benzer-se em mesa de bar ? Nem macumbeiro ! Aproveitou a mão já alta sobre a testa para enxugar o suor, porejando, exigindo providências imediatas, recado das partes baixas de seu corpo, tomado de arrepios intermitentes.
Em último caso, iria ao banheiro e perderia a vaga, o que não dava mais é postergar a medida. Se perdesse o posto, discretamente pagaria a conta e tomaria outro rumo, afinal eram ainda duas da madruga e a noite é uma criança, tomaria outros rumos... Até se admirava por tanta determinação, visto que costumeiramente não saía só, era uma novidade, totalmente ousada, que parecia tê-lo conquistado por adrenalina jamais experimentada.
Quando fazia menção para afastar a cadeira, com o intuito de levantar-se, alguém o interpelou delicadamente...
- Posso me sentar, você está só ?
Era uma mulher, nem feia nem bela, igual à maioria, nada que a salientasse, na verdade primava pela sua privacidade, pois a fulana poderia alugar seus ouvidos para assuntos alheios, desabafos e coisas que não o interessavam, mas era também uma alternativa, teria o lugar reservado, além do que, o cara do balcão veria que ele não é um gay em busca de aventuras... somando à contingência de ter que se dirigir ao banheiro com imprescindível necessidade, concordou.
- Sim, estou só, pode se sentar e ficar à vontade, se me permite, vou ao toalete, retorno logo ( espero !)...
- (com voz melíflua) posso pedir uma bebida para a mesa enquanto você se ausenta ?
(levanta a mão para o garçom, autorizando em gestos para servi-la)
- Pode sim, com licença...
Cambaleando no sinuoso trajeto entre as mesas, dava-se conta de sua embriaguês inabitual, constrangendo ocupantes de mesas vizinhas, com um pedido melindrado e envergonhado de desculpas pelos encontrões no caminho, a parecer interminável..
Pensou em perguntar aonde ficava o banheiro masculino, quando presenciou extensa fila, que julgava ser do caixa, mas era exatamente o que temia...
- Ô gordo ! Olha a fila !
( além de ser chamado de gordo, o que detestava, a espera lembrava filas de atendimento na saúde pública, calamitosa !)
Parecia que todos resolveram se esvaziar ao mesmo tempo, porejava a testa em suores frios, fazendo-o passar um guardanapo nas têmporas para conter a sudorese incômoda.
Tentava fugir dali, em pensamentos, esquecendo-se por instantes da premência de desaguar...a mente tudo controla, raciocinava apaziguando o desconforto.
- Ô gordo , a fila anda...
( desta vez não se sentiu ofendido, era o aviso de que chegava, finalmente, a sua vez)
Aquele ambiente simpático, com música ao vivo, iluminação planejada, era o contraste com a visão do banheiro masculino: espaço coletivo para a urina e biombos com portas desajeitadas para as outras necessidades. Papel higiênico servindo de toalha, espalhando fiapos pelo chão, já umedecido pelos afoitos nos respingos de suas armas.
Deixara naquele local nauseante boa parte do que consumira, saía, por fim, aliviado.
Caminho de volta, a procura da mesa que partilhava com uma providencial desconhecida. Esperava que ela não fosse uma chata, a usá-lo como ombro amigo para suas desditas, tudo menos ser um psicólogo na madrugada...
Ao avistá-la, assustou-se. A mesa que tinha antes um copo de chope, apresentava-se sortida com cálices de diversas cores. Como ela poderia ter consumido tanta bebida em tão pouco tempo ? ( nem tão pouco assim, olhava o relógio, ficara retido entre ida, espera , uso do sanitário, mais de uma hora e meia) Ainda assim era muita coisa para uma pessoa só.
- Oi, demorei ?
- Tudo bem, imagino a fila do banheiro... ( falou sem muito interesse)
- Imensa fila ! ( olhando os copos, cinco taças) – Você aprecia muito vinhos ?
- Pois é, vinhos, licores e whiskes .
( espanta-se ao vê-la levantar a mão para o garçom)
- Ainda vai beber mais ?!
- Ora, por que não, a noite é convidativa, tenho sede..
- Eu só tomo chope... mas acho que exagerei, mal consegui chegar até o banheiro...
- (rindo discretamente) – Eu vi a dificuldade... Não quer experimentar um pouco do vinho da casa, é divino !
- (fazendo que não com a cabeça) – Peço mais um chope, vou bebendo aos poucos...
- Olha, assim que o garçom chegar será a minha vez de ir ao toalete, ok ?
- Claro...
Depois de bebericar mais uma taça, levantou-se com desenvoltura, nem parecia uma dama que tinha bebido tanto. Envergonhou-se de sua fraqueza com os chopes no hilário trajeto que fizera até o banheiro.
Olhou o relógio e surpreendera-se com o adiantado das horas, quinze para as quatro da madrugada. Esperaria ela chegar, acertariam a conta e iria para casa, estava satisfeito com sua primeira aventura individual.
Pediu mais um chope, mas já não demonstrava tanto sabor, perdera o paladar, bebia para entreter-se, deixar passar o tempo.
E os ponteiros do relógio já assinalavam quatro e meia, e nada da mulher retornar à mesa, estranhou a demora. Verificou que ela levara seus pertences, uma blusa leve e a sua bolsa.
Achou por bem que fechassem a conta, acertaria seus chopes, ela que pagasse seus drinques quando chegasse...não havia mais o risco de perder o lugar, pois o local já não estava repleto como antes...
( Ao garçom) – Por favor, feche a conta, veja quanto chopes eu tomei...
- Chopes e vários drinques, senhor, estou certo ? Não é esta a mesa 14 ? (falou olhando um marcador existente)
- Sim, os chopes são meus, os drinques daquela mulher que sentou-se aqui...
- Mas ela, ao sair, disse-me que o senhor acertaria tudo....
- Sair ?! Ela não foi ao toalete feminino ?
- Foi este o recado que deixou na recepção, aliás, tenho um bilhete para o senhor...
(lendo desconsolado para si mesmo):
“obrigado por tudo, você foi especial. Não me chateou com suas prováveis amarguras, deixou-me só para pensar nos meus problemas e também me proporcionou um lugar discreto, longe de intrusos que não podem ver uma mulher sozinha, foi um cavalheiro.
Obrigado pela gentileza das bebidas,
Beijos !!!
(TEXTO SELECIONADO PARA A ANTOLOGIA DE CONTOS DA MADRUGADA, EDITORA CÂMARA BRASILEIRA DE JOVENS ESCRITORES, CBJE, RIO DE JANEIRO/RJ, MAIO DE 2010)
segunda-feira, 13 de junho de 2011
A JANELA ABERTA ( TEXTO P/TEATRO - 1 ATO EM 5 CENAS)
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