Ainda que sejam
Os atos tidos
Simplórios, pequenos
Os sussurros
Murmúrios
Soluços
Importa saber
Que o cantar
E o sofrer
Não são únicos
Ressoam
Ecoam
Sensibilizam
Emocionam
Alentos de vida
Comunicam-se
Identificam-se
Por não estarmos sós...
MORTA SEREI ÀRVORE SEREI TRONCO SEREI FRONDE. NÃO MORRE AQUELE QUE DEIXOU NA TERRA A MELODIA DE SEU CÃNTICO NA MÚSICA DE SEUS VERSOS. Cora Coralina, poetisa (1869-1985)
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
TRANSIÇÃO
Avantajavam as pernas,
Mal as ocultavam as vestes
Os seios espontâneos
Insinuantes sob o tecido cru
Lábios carnudos e femininos
Explodindo na face morena
Cabelos em desalinho
Revoltos na testa e dorso
Olhos jabuticabas
Matreiros e fascinantes
As formas exorbitando
No corpo modulado de fêmea
As mãos finas e impacientes
Detendo o pudor
Fruta de meia-estação
Borboleta deixando o casulo
Instintos em apuros
Frenesis e torpores
Malícias às escondidas
Sorrisos à mostra
A primeira aventura
Um beijo à socapa, um abraço
A confidência e a descoberta
A imagem vaidosa no espelho
A carta, o bilhete, o flerte
Os projetos e o amanhã
Na lábia das maravilhas
Desejos e receios
A flor beijada pelo inseto
A ânsia e o ato consumado
Amadurecem os sonhos
Livre mariposa, rosa aberta
Ave exigente
De asas adultas
Da pequena restou a meiguice
Da mulher surgiu o sensual
Nas maças das faces,
A chama flamejante
Ardente fogo avassalador
Como rainha subjugou mil súditos
Do forte fê-lo frágil
Fascinado nas carícias
Do macho quedou-se criança
Necessitada de colo
A tantos fez-se desejada
E nenhuma a satisfez
Foi Ana, foi Maria
E tantas outras
Fantasia de grandes paixões
Fruta enigma
De todos a mulher
A menina, de ninguém.
( versos meus encontrados em velhos escritos, 1980)
Mal as ocultavam as vestes
Os seios espontâneos
Insinuantes sob o tecido cru
Lábios carnudos e femininos
Explodindo na face morena
Cabelos em desalinho
Revoltos na testa e dorso
Olhos jabuticabas
Matreiros e fascinantes
As formas exorbitando
No corpo modulado de fêmea
As mãos finas e impacientes
Detendo o pudor
Fruta de meia-estação
Borboleta deixando o casulo
Instintos em apuros
Frenesis e torpores
Malícias às escondidas
Sorrisos à mostra
A primeira aventura
Um beijo à socapa, um abraço
A confidência e a descoberta
A imagem vaidosa no espelho
A carta, o bilhete, o flerte
Os projetos e o amanhã
Na lábia das maravilhas
Desejos e receios
A flor beijada pelo inseto
A ânsia e o ato consumado
Amadurecem os sonhos
Livre mariposa, rosa aberta
Ave exigente
De asas adultas
Da pequena restou a meiguice
Da mulher surgiu o sensual
Nas maças das faces,
A chama flamejante
Ardente fogo avassalador
Como rainha subjugou mil súditos
Do forte fê-lo frágil
Fascinado nas carícias
Do macho quedou-se criança
Necessitada de colo
A tantos fez-se desejada
E nenhuma a satisfez
Foi Ana, foi Maria
E tantas outras
Fantasia de grandes paixões
Fruta enigma
De todos a mulher
A menina, de ninguém.
( versos meus encontrados em velhos escritos, 1980)
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
T R É G U A S
SELECIONADA PARA PUBLICAÇÃO EM LIVRO DA 87° ANTOLOGIA DE POETAS BRASILEIROS CONTEMPORÂNEOS, EDITORA CBJE, RIO DE JANEIRO, FEVEREIRO DE 2012. 
Distinguido entre os autores com mais de 100 mil leituras nas antologias on line da editora.
Noites que nos acolhem
Convite ao refazimento
Pausas nas lidas nos recolhem
Na distância do alheamento
Corpos ressonam nos alívios
Das estripulias dos dias
De energias novas redivivos
Pacificados nas lutas rotinas
Silêncio que nos acompanha
Vereda insondável estranha
Viagens distantes das retinas
Manhãs ressurgidas nos vagidos
Na balbúrdia dos zunidos
Reinício nas batalhas matutinas...
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
E X P E R I Ê N C I A S
Selecionada para publicação no livro: POETAS BRASILEIROS CONTEMPORÂNEOS N° 86, editora Câmara Brasileira de Jovens Escritores, CBJE, Rio de Janeiro, janeiro de 2012. 
Distinguido entre os autores com mais de 100 mil leituras nas antologias on line da editora.
Vaga o pensar indolente
Acurado nas experiências
Nos refolhos da mente
A trazer reminiscências
Iguais ou análogos
Fatos desbotados
Em íntimos diálogos
Infortúnios relembrados
Volta ao presente
As incúrias no ausente
Das primevas ilusões
As dores de outrora
Alerta-nos agora
Em sábias precauções...
ssSelecionada para gigurar no li POETAS BRASILEIROS CONTEMPORÂNEOS, eidotra CBJE, RIO DE JANEIRO/RJ, JANEIRO DE 2012
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
SABEDORIA DOS TEMPOS
os fulgores da mocidade
nos tempos
à mansidão da meia idade
vivências estabanadas
levianas em impulsos
memórias repassadas
vitalidades, ousadias,
trânsfugas aventuras,
alacridades lembradas
sábia sincronia
na madureza o siso
da juventude fugidia...
(26/10/2010)
nos tempos
à mansidão da meia idade
vivências estabanadas
levianas em impulsos
memórias repassadas
vitalidades, ousadias,
trânsfugas aventuras,
alacridades lembradas
sábia sincronia
na madureza o siso
da juventude fugidia...
(26/10/2010)
sábado, 7 de janeiro de 2012
NATUREZA MORTA ( CONTO )
Ao avistar aquela paisagem, adentrando o terreno, onde enorme porteira sinalizava os limites da propriedade, sobressaía a construção alta, com sua imponência, apesar do aparente abandono. Seguidos por um rapaz negro que demonstrava conhecer os meandros, não só da fazenda, mas das biografias de seus antigos proprietários e moradores. Contando, aos poucos, de acordo com que a curiosidade fosse solicitando. Vivia ali, plantando e colhendo em pequeno espaço, à troca de cuidar do casarão e dos arredores, cercados de matos.
Assim, pasmos, os visitantes verificaram a existência de um poste com argolas, sobre uma pequena elevação de pedras, existente no adro fronteiriço à entrada, como os utilizados para o suplício humano de negros escravizados. Então, repetindo o que sabia de seus pais e avós, o rapazote esmiuçava o enredo que, de tão repetido, parecia vivê-lo, ao contá-lo em detalhes aos atentos ouvintes. Era a herança que recebeu de seus tiranizados antepassados, narrativas de seus sofrimentos pela dominação branca. Arrepios de compaixão ao imaginarem as dores físicas impingidas aos escravos.
Adentrando o edifício imponente, sem perder a majestade, embora envelhecido nos anos, o ranger da madeira do assoalho, a escrivaninha grande no antigo escritório, com alguns objetos sobre ela. Os janelões rangendo ao serem abertos, como se acordassem após longo sono. O Sol penetrando, denunciando paredes enodoadas pelo tempo e descaso de uma casa abandonada. Imagens em estatuetas de alguns santos católicos, em nichos, revelando religiosidade, uma espingarda enferrujada, chapéus de palha apropriados para se defender de dias quentes. Alguns facões grandes, de abrir picadas em matas, encostados ao lado de uma cristaleira. Nas gavetas, abertas, quinquilharias, algumas moedas do império e notas de papel desvalorizadas
Andar pelos corredores da propriedade deserta era como viajar em sua história, reacender o seu passado, penetrar na intimidade de seus moradores falecidos. Quartos de portas grandes e janelas de madeira com tramelas, camas que mantinham algum arranjo, véus que cobriam, protegendo dos mosquitos, criados-mudos sisudos, urinóis de ferro esmaltados em porcelanas, sob as camas.
Vidas paradas no espaço remoto de outros costumes, passeio que lembrava visita a um museu. Moradia de fazenda, rodeada por varanda, alta em referência ao solo, na qual destacava-se um pequeno sino, a chamar a atenção dos visitantes. Tratava-se, explicava o cicerone, de um sinal para chamar os filhos dos aldeões para as aulas, concessão estranha para a época, comentavam os informados. Benesse concedida à filha do patriarca, intercedendo junto ao pai pela devoção às crianças negras.
Só os passos, provocando ruídos, se ouvia naquela incursão de estranhos em visita. Ausências de coisas e pessoas se denunciava, como se recolhida em outra era, gruta inescrutável em tempo moderno, canto conservado em suas relíquias e saudades. Sinais de outras vidas, outrora habitantes, em seus afazeres diários. Divisões de alvenaria registrando vestígios, presenças pressentidas em imagens imaginárias, a andarem pelos corredores, na azáfama de suas rotinas.
A casa de banhos, com suas bacias sanitárias, onde os dejetos, na ausência de canalizações do esgoto, caíam direto na senzala, habitação de escravos e empregados livres, posto que o escoamento dos detritos tinha aquele destino, moradia situada abaixo da casa grande, talvez justificando a altura da edificação.
Sem dúvida, um túnel do tempo, favorecendo devaneios e cenários para remontar a história, num passeio pelo pretérito. Como testemunhas daqueles recuados anos atestavam as colunas que sustentavam a construção, ainda sólida, embora desabitada, revelando sobriedade e resistência às intempéries na conservação.
Vasculhada em sua intimidade, parecia ganhar vida, possivelmente movida pela imaginação dos presentes, tentando remontar enredos e adentrar naquele universo distante do calendário atual. Gritos mudos, lamentos de vidas exploradas até o limite de suas forças, tangidos como gados da longínqua pátria africana.
Nos ares o barulho impiedoso dos chicotes vergastando carnes em horrores, de dores físicas e morais. Aquelas surdas lamentações pareciam voltar com o vento brando, choros e lágrimas, imprecações e fúrias contidas.
Percorrendo o terreno limítrofe ao quintal, chamava a atenção um esquecido cemitério, assinalados de cruzes de ferro, sepulturas da família senhorial, deserta área invadida por ervas daninhas.
A propriedade em sua imponência e requinte de outrora, dos brasões de família e de orgulho de casta, restava aos seus donos apenas cruzes encarquilhadas em ferrugens, atestando seus perecíveis restos mortais, na altivez e tristeza, na lembrança inglória e desonrosa de um pelourinho tiranizando seus semelhantes, iguais em espíritos, distintos apenas na cor da pele... Curiosamente, apenas em uma cova havia plantas não daninhas, mas margaridas brancas a cobri-la, aonde repousava a filha, preceptora, que ensinava e intercedia pelos pequenos descendentes dos escravos.
Nas espirais dos tempos, esmaecidas lembranças narradas aos visitantes pelo bisneto de negros escravizados, protagonistas da história escrita com sangue e lágrimas, trazendo à lume, vidas ausentes, naquele cenário de natureza morta...
Selecionado para figurar em livro na Antologia Contos de Outono, edição março de 2012, editora CBJE, Rio de Janeiro/RJ
Assim, pasmos, os visitantes verificaram a existência de um poste com argolas, sobre uma pequena elevação de pedras, existente no adro fronteiriço à entrada, como os utilizados para o suplício humano de negros escravizados. Então, repetindo o que sabia de seus pais e avós, o rapazote esmiuçava o enredo que, de tão repetido, parecia vivê-lo, ao contá-lo em detalhes aos atentos ouvintes. Era a herança que recebeu de seus tiranizados antepassados, narrativas de seus sofrimentos pela dominação branca. Arrepios de compaixão ao imaginarem as dores físicas impingidas aos escravos.
Adentrando o edifício imponente, sem perder a majestade, embora envelhecido nos anos, o ranger da madeira do assoalho, a escrivaninha grande no antigo escritório, com alguns objetos sobre ela. Os janelões rangendo ao serem abertos, como se acordassem após longo sono. O Sol penetrando, denunciando paredes enodoadas pelo tempo e descaso de uma casa abandonada. Imagens em estatuetas de alguns santos católicos, em nichos, revelando religiosidade, uma espingarda enferrujada, chapéus de palha apropriados para se defender de dias quentes. Alguns facões grandes, de abrir picadas em matas, encostados ao lado de uma cristaleira. Nas gavetas, abertas, quinquilharias, algumas moedas do império e notas de papel desvalorizadas
Andar pelos corredores da propriedade deserta era como viajar em sua história, reacender o seu passado, penetrar na intimidade de seus moradores falecidos. Quartos de portas grandes e janelas de madeira com tramelas, camas que mantinham algum arranjo, véus que cobriam, protegendo dos mosquitos, criados-mudos sisudos, urinóis de ferro esmaltados em porcelanas, sob as camas.
Vidas paradas no espaço remoto de outros costumes, passeio que lembrava visita a um museu. Moradia de fazenda, rodeada por varanda, alta em referência ao solo, na qual destacava-se um pequeno sino, a chamar a atenção dos visitantes. Tratava-se, explicava o cicerone, de um sinal para chamar os filhos dos aldeões para as aulas, concessão estranha para a época, comentavam os informados. Benesse concedida à filha do patriarca, intercedendo junto ao pai pela devoção às crianças negras.
Só os passos, provocando ruídos, se ouvia naquela incursão de estranhos em visita. Ausências de coisas e pessoas se denunciava, como se recolhida em outra era, gruta inescrutável em tempo moderno, canto conservado em suas relíquias e saudades. Sinais de outras vidas, outrora habitantes, em seus afazeres diários. Divisões de alvenaria registrando vestígios, presenças pressentidas em imagens imaginárias, a andarem pelos corredores, na azáfama de suas rotinas.
A casa de banhos, com suas bacias sanitárias, onde os dejetos, na ausência de canalizações do esgoto, caíam direto na senzala, habitação de escravos e empregados livres, posto que o escoamento dos detritos tinha aquele destino, moradia situada abaixo da casa grande, talvez justificando a altura da edificação.
Sem dúvida, um túnel do tempo, favorecendo devaneios e cenários para remontar a história, num passeio pelo pretérito. Como testemunhas daqueles recuados anos atestavam as colunas que sustentavam a construção, ainda sólida, embora desabitada, revelando sobriedade e resistência às intempéries na conservação.
Vasculhada em sua intimidade, parecia ganhar vida, possivelmente movida pela imaginação dos presentes, tentando remontar enredos e adentrar naquele universo distante do calendário atual. Gritos mudos, lamentos de vidas exploradas até o limite de suas forças, tangidos como gados da longínqua pátria africana.
Nos ares o barulho impiedoso dos chicotes vergastando carnes em horrores, de dores físicas e morais. Aquelas surdas lamentações pareciam voltar com o vento brando, choros e lágrimas, imprecações e fúrias contidas.
Percorrendo o terreno limítrofe ao quintal, chamava a atenção um esquecido cemitério, assinalados de cruzes de ferro, sepulturas da família senhorial, deserta área invadida por ervas daninhas.
A propriedade em sua imponência e requinte de outrora, dos brasões de família e de orgulho de casta, restava aos seus donos apenas cruzes encarquilhadas em ferrugens, atestando seus perecíveis restos mortais, na altivez e tristeza, na lembrança inglória e desonrosa de um pelourinho tiranizando seus semelhantes, iguais em espíritos, distintos apenas na cor da pele... Curiosamente, apenas em uma cova havia plantas não daninhas, mas margaridas brancas a cobri-la, aonde repousava a filha, preceptora, que ensinava e intercedia pelos pequenos descendentes dos escravos.
Nas espirais dos tempos, esmaecidas lembranças narradas aos visitantes pelo bisneto de negros escravizados, protagonistas da história escrita com sangue e lágrimas, trazendo à lume, vidas ausentes, naquele cenário de natureza morta...

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
DORES PASSAGEIRAS
Vento brando
Tarde morna
Soluço em pranto
Lágrima entorna
Reminiscências assim
Num lapso de tempo,
Indecisão, desatento,
Fragrância de jasmim
Revolta imanifesta
Alegria contesta
Sofreres sem fim
Na canção pacífica
Íntimo se sacrifica
Na lembrança ruim...
Tarde morna
Soluço em pranto
Lágrima entorna
Reminiscências assim
Num lapso de tempo,
Indecisão, desatento,
Fragrância de jasmim
Revolta imanifesta
Alegria contesta
Sofreres sem fim
Na canção pacífica
Íntimo se sacrifica
Na lembrança ruim...
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
VISÃO DE BELEZAS ( CONTO )
trabalhar era para fazer durante o dia, a noite era paralazer e descanso, aquilo estava mexendo com seu metabolismo na inversão dos seus costumes, andava impaciente, intolerante consigo mesmo. Acabava por chegar no horário em que a maioria dos mortais se preparavam para sair, e ele chegando para dormir. Pior de tudo era a perda do sono, depois de cochilar entre uma ligação e outra do plantão no suporte para clientes do banco. Havia sempre alguém para infernizar nas madrugadas, razão pela qual era necessário estar a postos. O fato
Cada louco com a sua mania... pensava esboçando um riso. Esse procedimento era diário, todos os princípios de manhã em que retornava, enervado do trabalho, contando os dias para voltar à sua rotina normal, via sempre aquela figura feminina naquela tarefa de cuidar daquela floreira, que, diga-se, estava exuberante, dando frutos, ou melhor, flores, rosas brancas, vermelhas e amarelas e graciosas margaridas e até crisântemos. A faina acabava já com os primeiros raios de sol, quando os pássaros, em alegre algazarra, vinham visitar aquela florista, como que compartilhando de seus afazeres entretida em sua paciente ocupação diária, até a delicadeza de beija-flores eram vistos, aquilo o entretinha, até que, vencido pelo cansaço, cedia ao sono reparador.
Nos dias que se seguiram, como um ritual, acompanhava a movimentação daquela mulher, entretida com sua roseira, bem cedo, quase ainda na madrugada, sempre pontual, presente em seu posto.. Acostumara-se em observá-la, aquilo fazia com que esquecesse os incômodos que sentia pela inversão de horários de trabalho e as chateações suportadas nas noites intermináveis com o descanso incomodado e interrompido, além dos clientes insatisfeitos transferindo a ele, atendente, seus azedumes e mau humores.
Certa madrugada, chovia, entrou rápido em casa, pegou o copo com água e, pasmo, observou que a mulher, com um guarda chuvas aberto, protegia o jardim suspenso, tentando evitar que suas flores fossem danificadas pelos excessos da chuva... ali permaneceu, vigilante, até que as águas fossem amainando, virando chuviscos.
Aquela cena surreal durou algum tempo, onde via-se na torcida por ela vencer as forças da natureza, parecendo um Davi em luta com um Golias, portanto como arma apenas um frágil protetor desafiando a força indômita, até a água amainar e ela fechar o protetor de suas queridas flores... Então foi vencido pelo torpor do cansaço.
Acompanhava o desenvolvimento das plantas de tenras a adultas, brotando vivas, oásis colorido em contraste com a parede quase cinza de fumaça do edifício. Ela trabalhava incansável em cada nascer do dia claro, e ele passou a assisti-la de longe, até que, sempre vencido pelo cansaço, adormecesse.
Estabelecia-se uma nova rotina, a de assistir o trabalho meticuloso daquela estranha mulher, jovem ainda, talvez bela, pois não conseguia vê-la em detalhes, dada a distância. Mas o que o surpreendia era a assiduidade com que ela cuidava daquele espaço florido, parecendo que rejuvenescia a cada dia em esplendorosas cores nas vivas flores, tal o enfeite em uma natureza inexpressiva, até agressiva pois era um paredão escuro, sem pinturas há tempos e enegrecido pela fuligem sedimentada em anos de descaso. Assim, sobressaía naquela paisagem lúgubre a beleza daquele verdadeiro enfeite natural, quebrando a sisudez do cinza plúmbeo.
Passou a nutrir por aquela pessoa desconhecida uma admiração especial, como se fizesse, sozinha, num trabalho de formiguinha, toda a diferença.Enaltecia daquele pequeno jardim, como uma desculpa pela presença sombria daquela edificação mal cuidada. E, sem se dar conta, era seu espectador à distância, entretido com seu trabalho diuturno no raiar das madrugadas.
As férias do colega se consumiram, ele voltaria ao sonhado horário normal, onde se trabalha com a luz do dia e se descansa nas noites.
Entretanto, permanecia aquele desejo de apreciá-la em seu trabalho, ganhara um admirador anônimo, jamais percebia que era vista e acompanhada de outra janela, de uma cozinha, por um morador que, por força das circunstâncias, madrugava.
O tempo se encarregou de as coisas, para ele, voltar à normalidade, sendo a imagem da florista uma lembrança terna que ficou na memória, já não a acompanhava, dormia naquele horário, só acordando mais tarde...
Numa manhã de domingo, saindo para dar um passeio, enquanto esperava para atravessar a rua, a viu de longe, parecia ser ela. Dava a entender que tinha dificuldades para transpor a distância entre as duas calçadas, ou seria impressão dele ? Aproximou-se.
_ Bom dia, posso ajudá-la em alguma coisa ? Só então observou que ela tateava com um pequeno bastão, próprio para pessoas com deficiência visual. Agradecida, deu o braço para que fosse transposta entre as pequenas distâncias.
- Sou seu vizinho, do prédio em frente. A via cuidando da sua floreira, sempre bem cuidada, lindas flores...
- Sou seu vizinho, do prédio em frente. A via cuidando da sua floreira, sempre bem cuidada, lindas flores...
- Então, apesar de não enxergar muito, a ouviu satisfeita: são a minha vida, uma forma que encontrei de saudar sempre um novo dia... muito obrigado !
Ela se afastava, e ele, lágrimas escorrendo, colhia mais uma flor no jardim das lições da vida...
*Texto selecionado para figurar em livro Crônicas "E lá vem a esperança..." novembro de 2011, editora CBJE/RJ
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